Web 2 .0: o encontro da arrogância com a babaquice

Luis de la Orden Morais

Sumário

A Web 2.0 como um conceito foi válido até o ponto em que suas discussões se limitaram às experiências de desenvolvimento da web de países falantes do Inglês e ignoraram que as realidades da internet e do profissional da internet no mundo inteiro são variadas.

Mostramos as falhas do Ajax, adsense, Google e outros pilares do movimento Web 2.0, um movimento que rotulou arbitrariamente um meio global de comunicação sem consultar o resto do mundo.

Tenho lido com bastante interesse as discussões profissionais sobre Web 2.0 que estão surgindo no Brasil.

Como foi comentado pelo autor de um dos artigos que li, Web 2.0 é uma atitude. Outros a chamam de uma filosofia ou modo de pensar, e outros a chamam de uma camada. Eu pessoalmente prefiro chamar de uma listagem de tecnologias mais atuais para o contexto da Web de hoje segundo a ótica dos desenvolvedores do mundo desenvolvido de fala Inglesa.

Não me levem a mal, mas a partir do momento que um grupo de americanos coloca uma etiqueta de versão em um meio de comunicação global aberto que aqui na América Central e Latina tem uma penetração pequena e necessidades muito mais desafiadoras que nos países anglo-saxões, o resultado só pode ser o rabo abanar o cachorro. Vai ter gente querendo fazer em Ajax aquilo que antes se fazia em Flash, sítios em construção agora virarão beta, adsense continuará servindo resultados em Espanhol e Inglês no meio do texto corrente, contrariando tudo aquilo que os princípios de usabilidade pregam.

Usabilidade junto com acessibilidade (pura, não aquela servida em colher de chá para agradar aos buscadores) e Ajax são como cão e gato, dão para viver sob o mesmo teto, mas você como desenvolvedor está disposto ou tem a verba para construir uma casinha para cada um?

Google, aclamada como a empresa Web 2.0 (lá para quem fala Inglês e já curte todos os outros serviços de Google em sua própria língua) é o xodó da Veja e de todo repórter de tecnologia que esqueceu que para depender de um serviço de buscas puramente em Português no Brasil só se voltar no tempo, na época em que Yahoo ainda não tinha comprado o Cadê? e não tinha inventado esta moda corrente entre os buscadores MS-Yahoogle de pedir que o usuário brasileiro selecione a opção buscas em Português como a opção de resultados em um buscador brasileiro.

Aloooooooô, McFly. Afinal de contas que língua nós falamos? Que língua fala o nosso mercadinho raquítico de internet e o mercado escondido entre a centena de milhões de excluídos digitais com seus tostões na nossa mira?

E depois tem gente que se surpreende que pelos dados da pesquisa do NIC, 80% da população brasileira nas grandes capitais não fizeram transações comerciais pela internet. Afinal de contas, como? Se hoje tudo é um shopping, um login, uma home page, um cookie e um powered by, etc. Com este jargão de surfista carioca, quem é que nós esperamos atrair para gastar na internet?

Nem todo mundo é classe média com Inglês de cursinho no bolso. Muita gente que está fazendo site mal feito por ai o faz por não compreender o nosso discurso de " web standards", que uma hora é padrões web, então é webstandards (sem espaço) e depois vira standards web, conforme o WaSP divulga como a versão portuguesa de Web Standards.

Ah sim, agora é web tchu pointi ziró, né? Deixa-me ver isso aqui no arquivo de ajuda do  Frontpage, diz a professora blogueira. Tem bannerzinho para colocar no pé da página, talvez em azul metálico para casar com o banner do creative commons? Diz o webdesigner (sic). Por favor, me faça uma garapa com bastante açúcar. Nós desenvolvedores brasileiros nos deixamos enganar com expectativas e percepções distorcidas do nosso próprio mercado com uma ingenuidade que beira o patológico.

Eu sinceramente acho que por não bastar ser uma discussão de classe média americana, a Web 2.0 em alguns aspectos é um sapato muito pequeno para Países em desenvolvimento. Tem muitos conceitos bons, que por sinal já estavam no mercado antes mesmo da Web 1.0, mas não tem no seu corpo de discussões coisas que são importantes para nós, das mais básicas como a questão de contextualização lingüística e cultural às mais avançadas como a discussão sobre o uso da internet para a educação.

Ah, não está dentro do escopo? Pois então a gente tem que incluir, o que acabaria explodindo o próprio conceito de Web 2, pois adsense, Ajax e sítios omeletes (mashups) são os elementos da Web 2.0 menos usáveis e acessíveis e mais difíceis de implantar dentro de ambientes não-falantes do Inglês. Até o conceito de etiquetas (tags), um grande conceito na teoria, é uma boa droga se não adaptado ao contexto linguístico e cultural do Brasil.

Se eles querem chamar as práticas deles de Web 2.0, que seja. Por aqui o que nossa web precisa para atrair mercado e ser mais amigável para os usuários são padrões da web, usabilidade, acessibilidade, uso da Língua Portuguesa na nossa internet no mesmo nível que eles usam a língua deles na internet deles, melhores algoritmos de busca contextualizados para o Brasil e o uso de tecnologias que privilegiem acesso às camadas excluídas da sociedade de forma fácil e barata. Isso basta para começar a diminuir a brecha digital, incluir mais gente no mercado, financiar mais iniciativas empresariais on-line e manter os profissionais no mercado brasileiro, os quais com mais recursos financeiros advindos de um mercado propriamente cultivado poderão se dar o luxo de frescuras vindas de contextos internacionais.

A Web 2.0 como um conceito ou uma atitude (por sinal, até agora incapaz de explicar a si mesma e hermética ao ponto de beirar à babaquice), por mais legal que pareça, desvia a nossa atenção da nossa realidade de país emergente e nos distrai da criação de soluções brasileiras para problemas brasileiros. Mesmo nos países aonde a Web 2.0 surgiu, até agora pouco foi feito para tirar o foco do Ajax, o que me faz desconfiar que na Web 2.0 pode tudo acabar em pizza de Ajax nos próximos anos.

Dá para se notar como pouco se tem falado em relação à acessibilidade e usabilidade, principalmente quando os sítios em Ajax e o uso de adsense na maior parte das vezes são um estupro à usabilidade e acessibilidade, coisa que na Europa tem sido o maior empecilho da Web 2.0, pois as Leis da Acessibilidade estão em vigor e comercialmente fazer duas versões de um sítio é impraticável.  

Para terminar com uma analogia, a Web 2.0 ainda parece um parque de diversões de serviços e tecnologias on-line que estão financiando ou sendo diretamente financiadas por empresas por trás deste movimento. A coisa que eles ainda não perceberam é que o mundo fora desta área de diversões é bem maior e diverso com necessidades e infra-estrutura distintas.

O corpo e atitude da Web 2.0 são notavelmente classe-média primeiro-mundista, pois foram criadas exclusivamente por desenvolvedores dentro deste contexto. É simplesmente inaceitável aceitar a arrogância de um grupelho de desenvolvedores anglo-saxões (na verdade pequenos e médios empresários, se você já não notou) em determinarem desde suas cadeiras no hemisfério norte, o que é mais moderno, atual e relevante em desenvolvimento e práticas da web do mundo inteiro.

Sobre o Autor

O autor rabugentamente representado por seu filho.

Luis de la Orden Morais é baiano de Salvador e reside no Reino Unido aonde é consultor e projetista de interfaces de usuário em projetos comerciais on-line.

Anteriormente trabalhou para o jornal catalão La Vanguardia Digital, em Barcelona. No Reino Unido trabalhou para Nortel Networks, Cisco Systems, Woolworths e LoveFilm, a maior empresa Européia de aluguel de DVDs pela internet.

É pós-graduado, com Distinção, em Gestão de Projetos de Nova Mídia, pelo Birkbeck College, University of London.

© Foto, Luis de la Orden Morais, 2006.

Índice deste Especial

Web 2.0: introdução

Web 2.0: Compatível com o Brasil?

Web 2.0: tecnologias

Web 2.0: Tecnologias
HTML semântica, serviços da web (web services), SRS (RSS).

Web 2.0: conceitos

Web 2.0: Conceitos - I
Taxonomia popular, microconteúdos, navegação emergente e relevante.

Web 2.0: Conceitos - II
A web útil para computadores, o designer como um programador e conteúdo é rei.

Web 2.0: aplicativos e serviços

Web 2.0: Aplicativos e serviços - I
Wikipedia, blogs e Google Adsense.

Web 2.0: Aplicativos e serviços - II
Flickr e BitTorrent.

Publicado anteriormente sobre a Web 2.0

Web 2.0: o encontro da arrogância com a babaquice

Cartas enviadas

Veja: Web 2.0: Falta contextualização

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