Padrões web, standards web, web standards ou webstandards?

Luis de la Orden Morais

Sumário

Este artigo discute a confusão resultante do uso de expressões linguisticamente inacessíveis em lugar de padrões web/ padrões da web.

Todo desenvolvedor de padrões da web que se preze, já leu a missão do WaSP, Web Standards Project (Projeto dos Padrões da Web) em Português e possivelmente em inglês também. Quem leu o manifesto em Português deve ter notado que a tradução do mesmo está em Português Europeu, o qual apesar da beleza e  qualidade do texto, às vezes surpreende o leitor brasileiro com vocábulos e expressões não muito usadas no Português daqui.

Tomando como ponto de partida o texto traduzido em Português no sítio do WaSP e a a quantidade de traduções do termo web standards que circulam no Brasil, a coisa parece indicar que os  desenvolvedores brasileiros talvez não se afeiçoaram da tradução standards web proposta pelo WaSP e deixaram como no original em Inglês.

Nessa história, estamos perdendo nossos próprios padrões lingüísticos e dificultando o posicionamento de páginas sobre o assunto nos resultados de busca. Se você ouviu acerca da otimização de conteúdos para buscadores ou encontrabilidade, já deve saber que enquanto o desenvolvedor estrangeiro só precise usar o termo web standards, 2 palavras-chaves, para ser encontrado por seu público-alvo, nós inventamos para nós mesmos pelo menos 4 palavras-chaves distintas para se referir ao termo: padrões, web, standards e webstandards.

Neste cenário, ou o desenvolvedor brasileiro usa todos os termos (padrões web com todas as variantes em Inglês) e diminui o peso da palavra-chave dentro do texto ou aposta em um só termo e reza que quem estiver procurando pelo assunto utilize o conjunto de palavras-chaves que está em seu conteúdo. Se você é uma empresa, acabará gastando mais para posicionar 4 palavras-chaves nos resultados pagos e terá menos espaço para usar outras palavras-chaves na meta-informação.

É chegada a hora de corrigirmos isto, pois quem está sendo lesado nesta história somos nós mesmos. Precisamos unificar a nossa voz, a começar pelo jargão técnico de nosso próprio ofício e tomar o lado do termo que melhor se adequa à web em Português.

Abaixo seguem os termos mais utilizados e a razão por que deveriam cair fora de nossas discussões, publicações técnicas e material publicitário:

Web Standards, fora

Ocorre muito comumente que no Brasil expressões técnicas novas sejam utilizadas nos meios técnicos na língua original em que foram criadas.

Diferente da língua espanhola que atrai um interesse comercial mais intenso e possui uma base de tradutores infiltrada em praticamente todos os setores da indústria e tecnologia, a tradução de material técnico para o Português na web depende na maior parte das vezes da iniciativa caritária e do conhecimento lingüístico amador dos próprios desenvolvedores.

Naturalmente, à medida que o nosso setor amadurece, termos em Inglês deveriam ser absorvidos e corretamente traduzidos para a Língua Portuguesa. Que não caíamos na armadilha do é mas quem vai ler isso é gente da área, ou gente que já fala o inglês, pois se fosse por este argumento nós ainda estaríamos chamando as partes de um automóvel pelos nomes originais em Inglês e para dirigir um carro você precisaria de um curso de inglês.

Nesta era de buscadores, livrar-se do termo web standards significa que não estaremos competindo com os outros milhares de sítios estrangeiros que citam as mesmas palavras-chaves em seus idiomas, gastaremos menos para anunciar nossos serviços no Brasil e seremos melhor compreendidos por uma multidão de leigos que blogam e produzem conteúdos em nossa língua.

Webstandards, na lata do lixo

Existe uma tendência entre desenvolvedores de países que não falam o Inglês de utilizar a palavra web colada a toda palavra que se segue. Para nativos da Língua Inglesa webstandards é tão estranho quanto para nós chamar peixe-boi de peixe-de-boi.

Em dúvida sobre a validade de palavras aglomeradas, visite qualquer sítio de empregos nos Estados Unidos, Canadá ou Reino Unido e compare a quantidade de empregos que saem para as palavras-chaves web standards em comparação a webstandards e web designer em comparação a webdesigner.

O número ínfimo de resultados (isto se aparecer um sequer) para webdesigner e webstandards explica porque a maioria dos departamentos de recursos humanos de países falantes do inglês dá pouca atenção a currículos de desenvolvedores com cargos descritos como webdesigners e webdevelopers.

Primeiro, os próprios softwares de busca de palavras-chaves no currículo não entenderão estes termos aglomerados; segundo, parece Inglês de analfabeto, sinto dizer.

Standards web? Hmmm, tá querendo me enganar, é?*

Esta é a versão traduzida no sítio do WaSP. E, sim, o Aurélio concorda com a palavra standard muito embora a grife como uma palavra inglesa em uso no idioma Português.

O problema é que não soa nem como uma coisa nem outra principalmente quando o idioma Português já possui expressões como padrão ISO 9001, padrão de qualidade, etc. Além do mais não se diferencia em nada do original em inglês, podendo ser confundido pelos buscadores.

Eu ainda creio que a tradução portuguesa da missão do WaSP é uma das melhores hoje na web de Língua Portuguesa (respeitando as pequenas diferenças entre o estilo brasileiro e o europeu), mas que falha na tradução do termo essencial do movimento dos padrões da web.

Hmmm, tá querendo me enganar, é? é assumida como marca registrada da Sadia, frase usada na propaganda do garotinho tentando reconhecer com os olhos vendados qual dos presuntos à mostra era o verdadeiro presunto da Sadia. Desculpas para todos os menores de 30 anos.

Padrões web versus padrões da web

Por eliminação e com a ajuda do bom senso, do dicionário Aurélio e de uma boa gramática portuguesa chegamos às duas palavras-chaves propriamente traduzidas da forma que deveriam ser: standards é padrões, web é web.

Ah, se tudo fosse fácil assim...

Se você prestou atenção às suas aulas de Inglês, deve ter lembrado que os adjetivos em Inglês precedem os substantivos, ou seja, caixa azul seria azul caixa, menina bonita, bonita menina.

A língua Inglesa também permite que outros substantivos sejam utilizados na posição de adjetivo para encurtar frases que requeiram o uso do possessivo de. Exemplo, casa de boneca vira boneca casa. Contrário do que muita gente pensa, a palavra boneca não virou um adjetivo, mas continua um substantivo apenas ocupando a posição do adjetivo porque perdeu o de.

No caso da expressão web standards a palavra web não é um adjetivo, nem em Inglês nem em Português, mas um substantivo usado na posição de adjetivo possessivo porque perdeu o de (of). Sendo assim, web standards é na verdade standards of the web; W3C standards, standards of the W3C.

Em Inglês você pode utilizar palavras como radio e television tanto como adjetivos (radiofônico e televisivo) quanto substantivos (do rádio e da televisão). O mesmo não ocorre com a palavra web que na língua inglesa ainda continua apenas como um substantivo.

Logo o mais correto seria dizer padrões da web ao invés de padrões web , padrões do W3C ao invés de padrões W3C , padrões do (Comitê do) ISO 9001 ao invés de padrões ISO 9001, pois web, ISO 9001 e W3C são ou estão sendo usados como substantivos tanto em Inglês quanto em Português.

O uso de maiúsculas

Tornou-se comum entre tecnólogos americanos cunharem termos e palavras do momento (buzzwords) e os colocarem em iniciais maiúsculas. 

Palavras como usabilidade, acessibilidade, padrões da web e outras devem ser tratadas como qualquer substantivo e assim como psicologia, direito e pedagogia devem vir todas em minúsculas se não forem a primeira palavra de uma frase. A mesma regra é aplicável no idioma Inglês.

Conclusão

A questão lingüística ao redor das traduções de web standards em Português traz à superfície assuntos relevantes para o desenvolvedor que escreve conteúdo comercial e artigos técnicos tanto para atrair clientes quanto para atrair outros desenvolvedores para causas como a dos padrões da web.

Uma linguagem técnica contextualizada para o Brasil, demonstraria a nossa maturidade enquanto um setor da indústria e beneficiaria o posicionamento de nossos conteúdos nas páginas de resultado de busca.

A normalização lingüística de termos técnicos está em alinhamento com o princípio de contextualização cultural e acessibilidade lingüística, essenciais para o encurtamento da brecha digital no Brasil. Maximizando a oportunidade de proporcionar aos nossos futuros web designers e população leiga ativa na internet informação consistente que seja fácil de entender e encontrar.

Termos como webstandards, web standards e standards web ofuscam as palavras chaves mais fáceis de entender e encontrar na Língua Portuguesa como padrões da web e padrões web e potencialmente confundem cidadãos falantes do Português.

Sobre o Autor

O autor rabugentamente representado por seu filho.

Luis de la Orden Morais é baiano de Salvador e reside no Reino Unido aonde é consultor e projetista de interfaces de usuário em projetos comerciais on-line.

Anteriormente trabalhou para o jornal catalão La Vanguardia Digital, em Barcelona. No Reino Unido trabalhou para Nortel Networks, Cisco Systems, Woolworths e LoveFilm, a maior empresa Européia de aluguel de DVDs pela internet.

É pós-graduado, com Distinção, em Gestão de Projetos de Nova Mídia, pelo Birkbeck College, University of London.

© Foto, Luis de la Orden Morais, 2006.

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