Luis de la Orden Morais
Pois, depois de um bom tempo dando indireta, direta e "sugesta" em sítio e fórum de discussão acerca da (má) qualidade lingüística dos resultados servidos por Google, Yahoo e MSN no Brasil e América Latina, vejam por onde, o Japão resolveu dar o basta e iniciou um estudo acerca da viabilidade da criação de um motor de buscas totalmente voltado aos interesses do povo japonês.
O buscador rival japonês não competirá com os motores de busca estrangeiros fora do Japão, mas pretende controlar anúncios e gerar fundos com marketing em buscadores.
A França também deu sinais de que já é chegada a hora de le fin para serviços de acesso de informação que privilegiam uma minoria de falantes do Inglês e exclui todo o resto da população.
Como era de esperar, algum País no mundo teria que levantar-se da platéia para dizer ao estabelecimento dos buscadores americanos qual a língua que devem falar quando fora de casa. Bem que poderia ter sido o Brasil, mas como estamos mais interessados em cair nas ondas tecnológicas de desenvolvedores estrangeiros do que encontrar a solução de nossos próprios problemas, o Japão cujo povo é mais conhecido por sua discreção e natureza não-confrontacional foi quem tomou a voz.
Clássico exemplo das pedras clamando.
Entretanto por mais que as razões por trás destas intervenções políticas nos mercados locais de motores de busca sejam explicadas, menos os anglo-saxões parecem entender que a acessibilidade lingüística e a contextualização cultural são elementos essenciais para o compartilhamento democrático da informação nestes países também . Mas como culpá-los? Pois sequer conhecem um mundo aonde o inglês não é a língua falada.
Dentro de países não falantes do inglês, Google, Yahoo e MSN parecem estar dirigindo seus serviços pelo caminho mais fácil de servir resultados para uma minoria bilíngüe e bastante versada no uso da internet. O que sugere a razão por que comparativamente seus algoritmos não provêm a mesma qualidade de resultados fora do mundo anglo-falante.
Entretanto, como pode ser que estas companhias lancem um serviço central à web no mercado estrangeiro e se esqueçam do detalhe óbvio de colocar a língua local em prioridade? Contenção de custos para diminuir riscos na expansão aos mercados estrangeiros e claro, maximizar lucros sem realmente entender coisa nenhuma dos Países aonde estão se fixando. Afinal de contas, garotos sempre serão garotos e capitalistas sempre serão capitalistas.
Danny Sullevan, editor da Search Engine Watch, comentou acerca da possibilidade de erupção de uma guerra comercial ao estilo da Airbus versus Boeing, neste caso algo como Japão contra os motores de busca. Esta expectativa não encerra o ponto central da questão pois as reais questões por trás das iniciativas do Japão e França são de foro social como a garantia de informação compartilhada de forma igualitária, democrática e justa.
Sim, uma guerra comercial pode acabar se originando mas não por que os governos destes países o queiram, mas como resultado deste motores de busca começarem a reconhecer a diversidade cultural e lingüística da Europa e Américas e tentarem reconquistar o mercado perdido.
Para nós pouco importa quais companhias sejam as donas do mercado de busca no Brasil contanto que o capital estrangeiro trabalhe dentro do fato que nós e os nossos outros milhões de excluídos digitais falamos português e necessitamos de um ambiente de aquisição de informação com menos ruído lingüístico nas páginas de resultado. Isto será essencial para acomodar e manter a massa de pessoas que se conectarão à internet brasileira no curso dos próximos anos.
A questão aqui é de igualdade de oportunidades e competição leal na aquisição e produção de conhecimento, coisa que não está ocorrendo nem no Brasil nem na França ou Japão. Irônico pensar que só como resultado das estratégias comerciais burras destas empresas globais, hoje nos encontramos no mesmo patamar (de exclusão lingüística) da Europa e Ásia industrializadas.
Do jeito que a coisa vai, se não nos conectarmos com a nossa realidade e necessidades, serão os americanos mesmos que descobrirão o que necessitamos, embalarão, darão nome e rótulo novo e tentarão vender para nós mesmos. E compraremos da mesma forma que temos feito há anos.
Artigo sobre a iniciativa do Japão criar seu próprio buscador do E-commerce Times, em Inglês.
Luis de la Orden Morais é baiano de Salvador e reside no Reino Unido aonde é consultor e projetista de interfaces de usuário em projetos comerciais on-line.
Anteriormente trabalhou para o jornal catalão La Vanguardia Digital, em Barcelona. No Reino Unido trabalhou para Nortel Networks, Cisco Systems, Woolworths e LoveFilm, a maior empresa Européia de aluguel de DVDs pela internet.
É pós-graduado, com Distinção, em Gestão de Projetos de Nova Mídia, pelo Birkbeck College, University of London.
© Foto, Luis de la Orden Morais, 2006.