Buscadores e a brecha digital: Exclusão digital começa na busca por Informação

Luis de la Orden Morais

Sumário

Discutimos a eficácia dos motores de busca em equalizar oportunidades de acesso à informação para toda a população brasileira.

Considerações acerca da contextualização e acessibilidade lingüística dos motores de busca e como eles deveriam se encaixar à realidade brasileira.

Houve um tempo em que buscar informação na internet poderia ser comparado com sair de seu lar às três e meia da manhã para comprar pão em uma boca de fumo. Uma busca por material escolar ou banca de matemática poderia trazer de volta um conjunto de links disfarçados que acabariam redirecionando seu navegador para um sítio pornográfico ou com conteúdo que você preferiria nem ter ouvido falar.

Então veio Google e através do uso de algoritmos mais inteligentes começou a fazer o desbaste digital, mudando toda a dinâmica ao redor do ato de buscar informação na internet.

Yahoo, com uma presença já solidificada no Brasil, também melhorou seu algoritmo, colocando-se como um rival importante no mercado dos buscadores e disputando a tapas o mercado chinês junto com MSN e Google. Estes três, comendo na mão do Governo chinês, otimizaram seus próprios algoritmos para que resultados que liguem para  sítios exigindo a democracia na China não apareçam nas páginas de resultados. Tal submissão por parte dos buscadores tem gerado comentários e protestos contra o que alguns percebem como colaboração empresarial com um regime opressor.

Na China, Google foi tirado do ar duas vezes até atualizar seu algoritmo para conformar-se com as diretrizes do governo, o qual chama esta política de censura digital de ‘O Escudo Dourado’ que protege o seu povo. Para quem não sabe, os tecnocratas chineses determinam as mínimas especificações tecnológicas de qualquer coisa que se refira a redes, telecomunicações ou tecnologias da informação em geral, tornando-as uma versão blindada daquilo que se encontra no Ocidente. Se você quer protestar a resposta é a mesma: os incomodados que não venham.

Como até agora o bornal digital na China aparentemente se resume a bloquear sítios que não se alinhem com o Governo sem exigir destas empresas o sacrifício da opção mais ética dentro das circunstâncias – manter acima de qualquer coisa o anonimato dos usuários chineses tentando acessar tais sítios – talvez não haja razão para que Google, Yahoo e MSN batam em retirada ainda. Se considerarmos que o uso de palavras-secretas como um meio de comunicação cifrada abunda em meios dissidentes, logo alguém poderá usar ‘pão’ em lugar de ‘democracia’ e abrirá um sítio com a campanha ‘pão para a China’. Neste caso, pelo menos é bom que exista um buscador para buscar pela palavra ‘pão’.

Pessoalmente, eu prefiro dar a estas companhias o beneficio da dúvida quanto a real extensão de sua forçada cooperação com governos totalitários, confiando que um evento com a gravidade do ocorrido na Praça da Paz Celestial (Tiananmen) em 1989, não esteja em formação nos bastidores digitais do País da Grande Muralha.

Qual o problema do Brasil então?

O problema brasileiro é diferente do problema chinês, claro. Em teoria, temos liberdade de expressão, muito embora estivéssemos restritos à publicação e distribuição movida a estenógrafo. Com o advento do blog, passamos a ter a liberdade de publicação e distribuição que faltava.

Entretanto dentro deste contexto de liberdade de expressão, distribuição e publicação de conteúdo na internet, milhões de documentos passaram a ser produzidos em excesso a cada dia. Por esta razão existem buscadores, para encontrar a informação mais relevante para cada pergunta.

Dentro de um contexto lingüístico, palavras-chave em idiomas irmãos como o espanhol e o italiano podem acabar sendo considerados como os mesmos aos olhos de um buscador comum. Adicione-se ao problema o fato que muitos desenvolvedores de sítios, por ignorância ou preguiça, não se importam em declarar no código da página a língua nativa do documento, o que complica ainda mais qualquer esforço em direção à identificação e categorização de informação por idioma. A palavra política, por exemplo, se escreve da mesma forma em Espanhol, Italiano e Português, com mínimas variações de acentuação.

Ainda mais problemático é a busca por termos Ingleses já incorporados no idioma Português como marketing; nomes científicos, universalmente escritos em Latim como homo erectus; nomes de pessoas, eventos ou posições geográficas internacionais como Ronald Biggs e Tiananmen. Uma busca por estes termos pode tecnicamente trazer documentos em qualquer língua.

Os esforços de Yahoo e Google no sentido de estabelecerem algoritmos que categorizem conteúdo mais eficientemente são elogiáveis. Entretanto, um problema novo foi introduzido por estas empresas em seu processo de expansão na América Latina de fala Espanhola e Portuguesa que dificulta a usabilidade e a acessibilidade para o grosso das populações latino-americanas compostas pelo cidadão falante de apenas um idioma.

Dentro de um ponto de vista de mercado pelo menos, estes cidadãos serão essenciais para a expansão do número de usuários no Brasil e resto da América Latina, adicionando ainda mais valor e retorno comercial a um mercado que necessita expandir em números para sobreviver dentro de um contexto de renda per capita muito menor que o da Europa ou do subcontinente Norte-Americano.

A brecha é mais embaixo

Aparelhos de busca como Google, Yahoo e MSN desempenham um papel importante no fechamento da brecha digital no Brasil e resto da América Latina.

Entretanto, somente a aplicação séria dos princípios de acessibilidade lingüística e usabilidade nos buscadores que hoje trazem o nome Brasil atrelado a seus logos trará a equalização de oportunidades no acesso à informação digital que o pobre, o deficiente, o idoso e o brasileiro comum que só fala o seu próprio idioma necessitam.

O ideal e o louvável, no cenário de um Brasil emergente, é que dentro de todos os avanços que as empresas de busca de informação trouxeram para o cenário digital, nós não percamos de vista a facilidade de encontrar resultados puramente em Português como era possível no passado. Resultados em castelhano e em inglês não passarão a mensagem ao cidadão comum brasileiro ou para o Internauta novato que a internet é algo útil, acessível e feita para todos. Quem fala inglês e lê todas as novidades no primeiro idioma que foi publicado pode não se lembrar mais o quanto é irritante e humilhante se debater com conteúdo escrito em um idioma que não se entende, mas a barreira existe.

The book is on the table

Quando Lucas Morea iniciou em marketing para buscadores e otimização para buscadores em 1997, ele como um desenvolvedor de sítios da web já havia rapidamente reconhecido que havia uma brecha no mundo digital, o equivalente à brecha econômica entre os hemisférios sul e norte do globo, mas determinado pela questão lingüística. Com isso em mente ele iniciou o sítio monografias.com que hoje hospeda mais de 10.000 artigos técnicos e tutoriais sobre áreas tão diversas quanto administração, política e zoologia em castelhano para falantes do castelhano, se me permitem a redundância.

Talvez o fato mais surpreendente sobre o monografias.com é que este sobreviveu o colapso do mercado de internet no final dos anos 90 e segue firme por oito anos. Talvez um sinal de que usuários de todos os patamares sociais na América Latina ainda necessitem de acesso à informação que seja simples e linguisticamente acessível.

Hoje aos 24 anos, este jovem Argentino apaixonado pelo Brasil e com uma segunda companhia com sede nos Estados Unidos – latinedge.com, que se especializa em marketing eletrônico para buscadores no mercado Latino Americano de fala espanhola – é um dos 25 finalistas escolhidos à mão pela revista BusinessWeek para o prêmio jovem empreendedor.

Lucas, segundo seus artigos, crê que o mercado latino-americano é um mercado promissor que requer paciência na hora de colher frutos, mas que antes de tudo requer a devida atenção lingüística para mostrar sua cor real.

Disseram que eu voltei americanizada

Em 1995, se alguém desejasse fazer uma busca em sítios em Inglês, bastaria ir a yahoo.com. Se a busca fosse por sítios brasileiros bastava buscar em cade.com.br. Esta divisão era mais clara porque cada buscador tinha seu conjunto de páginas indexadas (copiadas no disco rígido) dentro de seus próprios servidores. Cadê se especializava em indexar páginas em Português somente e Yahoo abocanhava páginas em outras línguas.

Quando um buscador nacional é adquirido por um buscador estrangeiro, as páginas dentro dos discos rígidos nos seus servidores são gradualmente incorporadas aos servidores centrais da empresa compradora. O que ocorre é um processo de comparação entre páginas existentes nos buscadores nacional e internacional; cópias redundantes são eliminadas e cópias originais são transferidas para o buscador internacional. O processo continua até todas as páginas originais do buscador nacional desaparecerem dentro do buscador internacional. Ao final, o buscador internacional toma o lugar do nacional e passa a servir resultados a partir de seus próprios servidores.

O problema é que então os buscadores passam a conter páginas em todos os idiomas possíveis no mesmo lugar, dependendo exclusivamente do algoritmo para classificar o que está em uma língua ou em outra.

Entretanto estas limitações não explicam porque dentro de uma página de busca para o Brasil, os usuários do Brasil ainda necessitem selecionar entre resultados em Português ou resultados no Brasil antes de fazerem suas buscas ou, como minha pobre mãe, uma internauta de primeira viagem, se deixarem surpreender pela sopa de idiomas nas páginas de resultado. Afinal de contas resultados em Língua Portuguesa já não deveria ser a opção automática dentro de um buscador que estampa o nome Brasil no seu logotipo?

Se isto serve de conforto para os usuários Tupiniquins, o mesmo problema ocorre na Europa aonde o fervor e o orgulho pela cultura e língua regionais são as mais ardentes. Na Espanha, além do Castelhano, Yahoogle oferece seus serviços nos outros idiomas nacionais: Catalão, Galego e Basco. Entretanto mesmo se o usuário houver selecionado a versão catalã do aparelho de busca, ele ainda terá de selecionar a opção resultados em catalão para obter os resultados na língua prometida.

Este processo pode parecer simples, para eu e você, cidadãos experimentados nas artimanhas da web (muito embora, eu ainda me pegue esquecendo de selecionar a opção páginas em Português toda vez que eu tenho que fazer uma busca por vários termos), mas é um passo desnecessário em todo o processo. Para quem está iniciando na web ou para quem esteja acessando estas páginas de busca através de um leitor de telas, os resultados em Língua estrangeira que vazam na opção automática (e até mesmo na opção de Língua ou País) destes buscadores ‘nacionais’ são empecilhos de acessibilidade e usabilidade que dentro de uma população já excluída acabam se tornando um impedimento psicológico para a obtenção de informação.

Para alguns termos buscados, pelo menos um destes buscadores do Brasil utiliza um link chamando a atenção do usuário para o fato que existem resultados em Português, caso o usuário tenha se esquecido de selecionar esta opção óbvia ao fazer uma busca.

Conclusão com um samba para Inglês Brasileiro ver

É necessário acordarmos para o fato que a inclusão social na internet através da acessibilidade lingüística, ou seja, dentro do Idioma nacional, é um dos mais básicos e óbvios elementos para não só compartilhar informação com o povo democraticamente, mas para se criar um mercado de internet no Brasil que gere interesse e uso entre a população.

O fato que os atuais buscadores como Google e Yahoo, colocam resultados em Língua Portuguesa como uma opção alternativa dentro de suas páginas no Brasil e deixam resultados em idioma Inglês e Espanhol vazarem já nas primeiras páginas de resultados representa uma inversão de valores e interesses que exclui grande parte da população. Esta falha pode ter um impacto na maneira como as pessoas percebem a internet e pode contribuir para o obscurecimento do conceito que a internet brasileira é algo relevante e acessível para todos.

Dentro da nossa realidade de País Latino Americano não falante do Inglês ou Espanhol precisamos ressaltar para as empresas à frente dos buscadores no Brasil que suas ferramentas precisam estar sintonizadas com nossas características culturais básicas e serem amigáveis para nossa população sem, entretanto perder a flexibilidade de encontrar resultados em outras línguas quando o grupo minoritário de usuários poliglotas as requisitarem.

Pelo que parece, a brecha digital vai além da possessão ou falta de um computador, mas retine nos próprios meios para encontrar a informação. Para o mercado brasileiro de internet expandir e gerar mais postos de trabalho precisa atrair a centena de milhões de cidadãos comuns ainda pouco expostos ao mundo digital com a promessa de serviços que ao menos devem vir em sua própria língua.

Até chegarmos a este patamar, para a maior parte da população brasileira será como se a grande muralha digital também passasse por aqui.

Sobre o Autor

O autor rabugentamente representado por seu filho.

Luis de la Orden Morais é baiano de Salvador e reside no Reino Unido aonde é consultor e projetista de interfaces de usuário em projetos comerciais on-line.

Anteriormente trabalhou para o jornal catalão La Vanguardia Digital, em Barcelona. No Reino Unido trabalhou para Nortel Networks, Cisco Systems, Woolworths e LoveFilm, a maior empresa Européia de aluguel de DVDs pela internet.

É pós-graduado, com Distinção, em Gestão de Projetos de Nova Mídia, pelo Birkbeck College, University of London.

© Foto, Luis de la Orden Morais, 2006.

 
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