Web 2.0: Falta contextualização E-mail não-publicado enviado a Veja, em resposta ao artigo Os Genéricos da internet, edição de 11 de Janeiro de 2006

10 de Janeiro de 2006, Watford, Grã-Bretanha.

À redação da revista Veja,

Vale a pena ressaltar que a web 2.0 e as tecnologias que utiliza são duas coisas distintas.

A web 2.0, é um movimento basicamente norte-americano, voltado à discussão de soluções para internet sob uma ótica um tanto primeiro-mundista. Já de início, é pretensioso rotularem um meio de comunicação global como a web e dar-lhe uma versão sem realmente considerarem o que é a web fora do mundo industrializado Anglo-Saxão.

Este movimento não criou as tecnologias-base que utiliza. Tais tecnologias já existiam e eram utilizadas no Brasil em projetos como www.camiseteria.com.br, muito antes que o pequeno grupo de empresários por trás da web 2.0 houvesse cunhado o termo.

Como ressaltado pelo artigo de Veja, as soluções em software produzidas pelas companhias web 2.0 americanas possuem seus pontos fracos, os quais, segundo o artigo, se resumem a questões de segurança e infra-estrutura. Mas só estes?

Esqueceu-se de mencionar que os programas abordados no artigo, por exemplo, estão todos em idioma estrangeiro. Fica difícil ver a professora primária, o estudante da zona rural ou mesmo a redação de Veja utilizando estes programas sem pelo menos um corretor ortográfico em Português.

Este é o tendão de Aquiles da web 2.0, não das tecnologias que utiliza: o movimento não vem com uma aplicação para contextos nacionais e lingüísticos fora do americano e europeu, não tem visão global nem a organização ou interesse em olhar o que a web realmente é ao redor do mundo. A maioria das soluções até agora inventadas não seguem os princípios do Movimento do Software Livre ou Código Aberto.

Dentro de um ponto vista mundial, estamos apenas trocando as figuras neste jogo de colonialismo tecnológico. Tirando de foco a Microsoft que apesar de servir-nos software caro, acertou em pelo menos contextualizar seus programas para cada país (desde o tamanho do papel e idioma do programa em si à correção ortográfica), para agora colocarmos em foco pequenas Microsofts que dentro de seu porte, não terão recursos ou interesse comercial para tornarem seus aplicativos relevantes para nossas necessidades culturais e lingüísticas.

O risco é que estaremos eternamente presos à versão beta no idioma original destas companhias até que uma base de consumidores brasileiros se forme para justificar o investimento em tradução e contextualização do software. Como é comercial, a abertura para nós mesmos traduzirmos e contextualizarmos o software, como permite um programa de código aberto, é mínima ou inexistente.

Como exemplo clássico deste problema estão os próprios mecanismos de busca americanos no Brasil como Yahoo e Google, enquanto lá fora consideradas companhias web 2.0, no nosso País sequer são capazes de nos oferecer resultados de busca em nosso próprio Idioma automaticamente. Atualmente para receber resultados em Português, o internauta brasileiro tem que selecionar a sua própria língua nos mecanismos de busca se não quiser ser inundado por resultados em diversos idiomas.

As conseqüências são claras: enquanto no mundo industrializado de fala Inglesa 80% dos usuários da internet usam um motor de busca para navegarem a internet, no Brasil este número entre os internautas cai para 20%.

O foco que buscamos não está nas empresas da web 2.0, não está em Microsoft, mas na utilidade e aplicação dessas tecnologias dentro de nossas necessidades, contexto cultural e língua. As tecnologias (não o movimento web 2.0) são úteis para nosso mercado. Falta apenas pensarmos com nossas próprias cabeças para começarmos a capitalizar também com soluções que beneficiem o Brasil e o mundo Lusófono.

Luis de la Orden Morais
Editor
Webalorixá

Nota aos leitores de Webalorixá: a versão eletrônica de Veja chega aos assinantes 4 dias antes de chegar às bancas, por isso a discrepância entre a data de publicação e a data em que o e-mail foi enviado.

Nenhum e-mail acerca do artigo em questão foi publicado, aparentemente alguma coisa relacionada com uma crise política acontecendo no País ;).

Sobre o Autor

O autor rabugentamente representado por seu filho.

Luis de la Orden Morais é baiano de Salvador e reside no Reino Unido aonde é consultor e projetista de interfaces de usuário em projetos comerciais on-line.

Anteriormente trabalhou para o jornal catalão La Vanguardia Digital, em Barcelona. No Reino Unido trabalhou para Nortel Networks, Cisco Systems, Woolworths e LoveFilm, a maior empresa Européia de aluguel de DVDs pela internet.

É pós-graduado, com Distinção, em Gestão de Projetos de Nova Mídia, pelo Birkbeck College, University of London.

© Foto, Luis de la Orden Morais, 2006.

 
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