Exclusão digital e lingüísticaE-mail publicado no Opinião e Notícia, em resposta ao artigo Exclusão digital e lingüística, de 25 de Novembro de 2005

02 de Março de 2006, Watford, Grã-Bretanha.

Caro Cândido,

Fico contente em ler alguém que também vê que existe uma questão de distanciamento linguístico a ser superado para realmente acabar com a brecha digital. Entretanto, o que o senhor diz acerca do domínio da língua inglesa na Europa Continental e Escandinávia não me soa com o que eu vejo na prática aqui na Europa.

Sim, é verdade que existe uma grande quantidade de pessoas nos países saxões que falam alguma coisa em inglês, mas na realidade estes são em sua maioria cidadãos que vivem nos grandes centros. Mesmo dentro deste subgrupo urbano, o inglês que alguns falam é suficiente apenas para coisas de uso prático, não daria para discutir política internacional. Nas zonas remotas destes países escandinavos, o nível de domínio de inglês despenca incrivelmente para rudimentos da língua.

Talvez a Suécia e a Dinamarca se destacaram neste sentido no passado, mas estas iniciativas na Europa, como no Brasil, são fomentadas e colocadas em coma de um governo a outro.

Por aqui na Inglaterra tem se debatido que já é hora de reformular o ensino de línguas nas escolas, porque pouquíssimas pessoas falam outro idioma, e não parando aí, pedem também pela reformulação do ensino da língua inglesa por causa da quantidade alarmante de profissionais que sequer sabem escrever corretamente.

Mesmo na Alemanha de hoje, é difícil encontrar pessoas que realmente falem inglês ao ponto de escreverem nesta mesma língua. Sim, a falam, mas poucos a dominam ao ponto de lerem tratados sociológicos.

Sim, já ví pipoqueiros falando inglês tanto em Paris e em Budapeste quanto no Pelourinho e no Aeroporto de São Paulo, entretanto não por coincidência ou fartura de cidadãos bilíngues nestes países, mas por serem estes lugares um canal de passagem de estrangeiros, ou claramente um local turístico, que naturalmente atrai aqueles poucos cidadãos das classes mais baixas que tiveram a sorte de aprender o inglês na prática e o utilizam no ganho de sua sobrevivência.

Se formos ainda mais a fundo nos países latinos (Espanha, França, Itália, Portugal, etc), o quadro é outro e mais inverso, ao invés de falarem o idioma nacional imposto (castelhano, francês, italiano), muitos cidadãos preferem falar o idioma local (catalão, basco, napolitano).

Todavia, eu não disputo que seria muito bom para os nossos jovens aprenderem o inglês (e o mandarin da China, já que estamos em uma fase de transição de potências), e reconheço que a produção de conhecimento no Brasil poderia ser mais abundante, mas não creio que a Europa do dia-a-dia substancie um argumento que, na minha opinião, é auto-sustentável: aprender o idioma dos países com maior influência global é bom.

Entretanto, até chegarmos ao nível em que todos igualmente teremos acesso à informação em inglês que nos falta em português, o que faremos?

Um abraço fraterno,

Luis de la Orden Morais
Editor
Webalorixá

Sobre o Autor

O autor rabugentamente representado por seu filho.

Luis de la Orden Morais é baiano de Salvador e reside no Reino Unido aonde é consultor e projetista de interfaces de usuário em projetos comerciais on-line.

Anteriormente trabalhou para o jornal catalão La Vanguardia Digital, em Barcelona. No Reino Unido trabalhou para Nortel Networks, Cisco Systems, Woolworths e LoveFilm, a maior empresa Européia de aluguel de DVDs pela internet.

É pós-graduado, com Distinção, em Gestão de Projetos de Nova Mídia, pelo Birkbeck College, University of London.

© Foto, Luis de la Orden Morais, 2006.