Luis de la Orden Morais
A taxonomia popular (também escrita como taxionomia e taxeonomia) vem como a substituição da taxonomia tradicional. Taxonomia quer dizer classificação e categorização das coisas. Taxonomia é o que o dicionário Aurélio faz com os vocábulos da Língua Portuguesa, o que os diretórios de busca fazem com as páginas da web e Wikipédia faz com assuntos variados: classificação e categorização.
A taxonomia popular significa que ao invés de um grupo restrito de indivíduos (acadêmicos, literatos, e intelectuais em sua maioria) fazerem esta classificação e categorização, o processo agora é aberto para todos.
Entretanto temos que prestar atenção para que a taxonomia popular não se dilua sob o peso do ruído lingüístico de outros idiomas ou interferência causada por grupos lingüísticos majoritários sobre um grupo menor.
Como a maioria falante da língua portuguesa no mundo lusófono e dentro deste grupo, tendo o Português do Rio e São Paulo como os mais difundidos, nós brasileiros devemos estar cientes do nosso próprio peso e tamanho para que não nos tornemos os novos americanos do mundo lusófono e latino-americano. Que não nos estendamos dentro do território cultural e lingüístico de outros países falantes do português e que as variedades do português faladas tanto aqui e lá não sejam massificadas por um estilo do Português apenas conhecido em um contexto geográfico (Brasil, Portugal, Angola, Lisboa, São Paulo, Bahia) ou grupo social (acadêmico, científico, técnico, universitário, classe média).
A taxonomia até então tem sido exercida pelos lexicógrafos e especialistas. Como tal, percebida como o trabalho de um grupo exclusivo. Abrir o espaço agora não basta, temos que garantir que o usuário possa beneficiar-se com uma taxonomia popular que tome em consideração que o povo é na realidade vários e diversos. A visão de todos os grupos deve prevalecer, não a visão de apenas um grupo que ainda que seja popular, obscurece outras abordagens na classificação e categorização das áreas do conhecimento humano.
Um grande conceito que pode funcionar bem dentro de qualquer contexto, entretanto corre o risco de beneficiar comunidades majoritárias e excluir minorias lingüisticamente similares, mas culturalmente distintas.
Um espaço delimitado para cada grupo aqui é essencial tanto para que as comunidades possam construir seus glossários de conhecimento de acordo com suas peculiaridades quanto o usuário saber quais são as influências e correntes de pensamento por trás das definições. Tão importante quanto abrir os processos de categorização do conhecimento humano para todos, é definir quais grupos registram percepções diferentes e levar em consideração estas interpretações como iguais em peso e não como apenas um item mencionado dentro da taxionomia do grupo majoritário.
Metataxionomizar é definir e identificar os grupos categorizadores de acordo com suas características; é se despedir da ilusão que a participação popular na organização e formação do conhecimento ocorre a partir de um todo culturalmente coeso que chamamos de povo.
Metataxionomizar os processos de categorização popular pelo menos no mundo falante do português é o passo a ser tomado para não cairmos na armadilha do unilateralismo cultural e lingüístico que alguns elementos do mundo anglófono, quer por ignorância ou por arrogância, pecam em seguir. Espere para ver não só edições da Wikipédia em outras línguas, mas também em edições que seguem sua própria metataxionomia: Wikipédia angolana, Wikipédia botânica, Wikipédia sertaneja, e o que ocorrer.
O conceito dos microconteúdos apóia os serviços da web. Cada pedaço de informação em uma página pode ser considerado um microconteúdo: uma foto, um texto, um link para um recurso externo, publicidade paga, etc…
Sendo que cada elemento pode ser separado como um microconteúdo, é possível criar sítios e serviços que funcionem a partir de outros. Por exemplo, um sítio de notícias pode receber suas notícias de um jornal específico enquanto as imagens e comentários do assunto podem ser servidos por outros sítios. Estes microconteúdos podem então ser rearrumados dentro da página.
Um exemplo dos microconteúdos em ação é o Google Desktop.
É uma boa idéia que precisa ser bem implementada antes de render frutos. Grande problema com ruído lingüístico logo precisa ser bem contextualizada e localizada para não passar a servir conteúdos em diferentes idiomas.
Não confundir com os microformatos, que em sua abordagem visam a interação entre o conteúdo e os seres humanos enquanto os microconteúdos visam a interação entre o conteúdo e diferentes sistemas computacionais.
O princípio da navegação emergente e relevante prega que com o uso de agregadores de informação e etiquetação de conteúdos (tagging), sítios e informações podem ser apresentados para usuários conforme suas tendências de navegação ao invés de uma navegação fixa.
Exemplos são Flickr, del.icio.us, daypop e outros sítios que também funcionam como sítios omeletes (mashups), onde o conteúdo servido vem de diferentes fontes e de acordo com aquilo que o usuário buscou anteriormente.
Os próprios idealizadores do conceito reconhecem que a falta de navegação fixa é um problema para encontrar a mesma informação em ocasiões posteriores, mas que pode ser resolvido com os próprios agregadores que buscarão informação baseada no que foi solicitado pelo usuário em oportunidades anteriores. Para substanciar o uso de agregadores como uma alternativa à navegação fixa, é também dito que aquilo que os usuários consideraram importante no passado poderá ser buscado no futuro.
Hmmm, vejamos.
O princípio deste conceito está correto, mas a sua aplicação parece difícil dentro de um ponto de vista de usabilidade, acessibilidade e contextualização lingüística.
Uma outra coisa preocupante é que até agora a decisão e controle individuais parecem ser sacrificados pela decisão e controle da comunidade sem oferecer um meio termo entre uma coisa e outra.
Este conceito ainda precisa provar que beneficia os princípios de consistência e de funcionalidade intuitiva que são essenciais à usabilidade de sítios.
Luis de la Orden Morais é baiano de Salvador e reside no Reino Unido aonde é consultor e projetista de interfaces de usuário em projetos comerciais on-line.
Anteriormente trabalhou para o jornal catalão La Vanguardia Digital, em Barcelona. No Reino Unido trabalhou para Nortel Networks, Cisco Systems, Woolworths e LoveFilm, a maior empresa Européia de aluguel de DVDs pela internet.
É pós-graduado, com Distinção, em Gestão de Projetos de Nova Mídia, pelo Birkbeck College, University of London.
© Foto, Luis de la Orden Morais, 2006.
Web 2.0: Compatível com o Brasil?
Web 2.0: Tecnologias
HTML semântica, serviços da web (web services), SRS (RSS).
Web 2.0: Conceitos - I
Taxonomia popular, microconteúdos, navegação emergente e relevante.
Web 2.0: Conceitos - II
A web útil para computadores, o designer como um programador e conteúdo é rei.
Web 2.0: Aplicativos e serviços - I
Wikipedia, blogs e Google Adsense.
Web 2.0: Aplicativos e serviços - II
Flickr e BitTorrent.
Web 2.0: o encontro da arrogância com a babaquice