Luis de la Orden Morais
6 graus de aproximação são uma metodologia de desenvolvimento de web que utiliza padrões da web, usabilidade, acessibilidade, contextualização e otimização de conteúdos on-line para buscadores (encontrabilidade) em um só esforço.
O artigo discute a utilização das tecnologias e métodos de desenvolvimento dentro de uma realidade brasileira.
A teoria dos 6 graus de separação primeiramente citada pelo Autor húngaro Frigyes Karinthy no conto Elos (Lancszemek) e imortalizada com a peça escrita por John Guare, mais tarde adaptada para o cinema através do filme 6 Graus de Separação (Six Degrees of Separation, 1999), diz que qualquer pessoa no planeta pode conectar-se com qualquer outra pessoa através de uma rede de não mais que cinco ou 6 outras pessoas.
Na maior parte das vezes, a teoria tem sido explorada em relação a alcançar pessoas nas altas esferas como personalidades, celebridades e políticos. Dentro da perspectiva primeiro-mundista de John Guare, por exemplo, é incrível como um jovem negro das ruas de Manhattam conseguiu infiltrar-se na alta sociedade nova-iorquina passando-se como o filho do ator Sidney Poitier e muito papo.
O questionamento a ser lançado, entre os profissionais da web brasileira, não deveria centrar-se apenas em quem podemos alcançar nas altas esferas através da internet, pelo menos não em uma realidade Brasileira em que as poucas dezenas de milhões de usuários brasileiros (predominantemente nossa classe média e alta) não são suficientes para manter os profissionais da web hoje no mercado.
Dentro da perspectiva brasileira, o incrível dentro de nossos próprios 6 graus de separação seria alcançar mais pessoas dentro das camadas sociais abaixo da classe média, pois o crescimento da base de usuários no Brasil e consequentemente do mercado de internet brasileiro dependerá destas classes. Neste contexto surge os 6 graus de aproximação.
A metodologia de desenvolvimento de conteúdos on-line através dos 6 graus de aproximação usa os elementos já conhecidos no desenvolvimento da web e os coloca como camadas superpostas que contribuem umas com as outras. A novidade está em posicionar tecnologias e metodologias de forma holística em camadas progressivas, tomando em consideração o público alvo visível e o público alvo escondido na brecha digital brasileira.
Na prática, os 6 graus podem ocorrer consecutivamente e os esforços para alcançar um grau podem ter repercussões positivas na realização de outros graus.
O mais importante nesta metodologia não são as tecnologias em si, as quais muito dos desenvolvedores dominam e são de comum conhecimento dentro da comunidade, mas no constante questionamento de como estas se complementam e qual o valor da aplicação destas para alcançar o público brasileiro.
Como tal a metodologia se divide como descrito abaixo:
A base da construção de conteúdos dentro da linha dos 6 graus de aproximação é a padronização do código de publicação, neste caso a XHTML, Extensible Hypertext Markup Language (Linguagem Extensível de Marcação de Texto) em alinhamento com as diretrizes do W3C, o World Wide Web Consortium. Conteúdos devem ser construídos baseados na separação de conteúdo e estilo. Código padronizado e bem escrito garantirá a longevidade do conteúdo no momento que tecnologias de navegação mudarem ou forem restritas.
A validação automática oferecida pelo W3C é um recurso valioso para confirmar que o seu conteúdo está seguindo estas diretrizes, mas para a realização real deste grau o desenvolvedor deve certificar-se que está utilizando código semântico corretamente (cabeçalhos, listas, declarações de idioma) já que o algoritmo do W3C não consegue realmente decidir se uma parte do conteúdo deveria ser um cabeçalho, parágrafo ou item de uma lista.
Se a base estiver bem construída em XHTML semântica, CSS (Cascading Style Sheets, Folhas de Estilo em Cascata) e Javascript DOM (Document Object Model, Modelo de Objeto do Documento), muito provavelmente alguns dos graus citados abaixo já estarão sendo alcançados indiretamente.
É importante que desenvolvedores que trabalhem com conteúdo on-line tenham em mente tornar o conteúdo fácil de entender e usar. A partir do grau de usabilidade, os desenvolvedores já devem saber qual o seu público-alvo e identificar qual o menor denominador comum dentro do público-alvo: possui computador ou acessa no trabalho? É novato ou experiente? Possui cartão de credito ou paga contas através de boleto bancário? Internauta casual ou assíduo? Boa parte destas perguntas são respondidas pela atual pesquisa do NIC, Núcleo de Coordenação e Informação.
O desafio do grau 2, ou usabilidade, no Brasil é alcançar um grupo crescente de pessoas que estarão acessando a internet pela primeira vez e dependem destas primeiras experiências para decidirem a real importância da internet em seu dia-a-dia. Um sítio usável não está apenas trazendo usuários para si, mas convencendo as pessoas que a internet brasileira como um todo é útil e relevante para as suas necessidades.
Todo conteúdo on-line deve ser acessível para cidadãos brasileiros com deficiências. O grau 3 de aproximação através da acessibilidade enfatiza que todo público-alvo possui pessoas com diferentes graus de deficiências físicas, pessoas que podem encontrar na internet a melhor maneira de interagir com o mundo e se integrar na economia.
O conceito de um público-alvo de deficientes separado de outros grupos apenas por ser deficiente é enganoso e discriminatório, já que grupos se formam ao redor de interesses comuns compartilhados entre os seus membros e as características físicas como cor, altura, idade, sexo, destreza física entre outras apesar de variarem de pessoa a pessoa não afetam o nível de interesse dos membros do grupo pelo assunto. Um deficiente físico pode gostar tanto de ler temas relacionados a futebol e comprar a camisa de seu time favorito quanto qualquer outro indivíduo. Da mesma forma indivíduos podem nutrir um interesse por temas relacionados às deficiências físicas sem entanto portarem qualquer deficiência.
A acessibilidade não extrapola aquilo que já se encontra na linguagem XHTML. Mas como no grau 1 requer validação manual além dos testes automáticos hoje encontrados no mercado.
O código acessível terá um efeito positivo nos graus de aproximação 2, 5 e 6, beneficiando não só o público com deficiências físicas mas a todos usuários e algoritmos de indexação de informação dos buscadores.
A contextualização cultural de conteúdos pode ter um efeito extremamente beneficial no posicionamento dos conteúdos on-line nos mercados regionais brasileiros principalmente quando estes mercados estão ainda por serem descobertos e explorados.
O objetivo da contextualização é oferecer ao público brasileiro o mesmo nível de familiaridade cultural e lingüística que os usuários anglo-saxões já gozam em seu próprio idioma e cultura. Dela nasce, por exemplo, a acessibilidade lingüística.
A contextualização de conteúdos é o maior aliado da usabilidade, acessibilidade e encontrabilidade ou graus 2, 3 e 5.
Além da criação e publicação de conteúdos on-line, desenvolvedores e designers precisam posicionar estes conteúdos dentro dos buscadores.
No cenário brasileiro, a questão é mais delicada já que na realidade os buscadores no Brasil não servem resultados contextualizados em língua Portuguesa a não ser que você selecione Língua Portuguesa como a opção de seus resultados. As implicações desta falha são mais profundas que nós desenvolvedores de classe média com cursinho de inglês podemos sentir, é uma falha que coloca conteúdos on-line ainda mais distantes da grande maioria de usuários e futuros usuários no Brasil.
Um trabalho bem feito em contextualização, código padronizado e acessibilidade por parte do desenvolvedor podem melhorar a visibilidade de conteúdos on-line em buscas, mas ainda estaremos todos dependentes da sorte que usuários descubram que em página de busca do Brasil resultados em português puro, só se pedir.
É como ter que beber cerveja quente porque esqueceu de pedir gelada.
O grau final dos 6 graus de aproximação tem a ver com a infra-estrutura em que a internet se manifesta no Brasil, o que ressalta ainda mais a importância dos graus anteriores.
A relação entre computadores e acesso à internet parece algo tão intrínseco que muitos tecnólogos e desenvolvedores se esquecem que o computador é mais uma opção de acesso e uma das mais caras.
Como desenvolvedores, precisaremos independentizar nosso conteúdo dos computadores e navegadores para não só alcançar o mercado hoje escondido na brecha digital mas tornar a experiência de uso da internet em algo menos formalizado. Um bom começo seria começar a prestar atenção à expansão da telefonia celular e discutir como criar serviços que poderiam ser acessados através de telefones celulares.
Em longo prazo, mais esforços deveriam ser dedicados no desenvolvimento de meios alternativos para acesso à internet. Quer seja através de hardware ou na atualização de tecnologias já existentes no lar como a televisão e o rádio.
A relevância dos graus anteriores entra em cena neste grau final, pois a aplicação dos graus de 1 a 5 garante que qualquer que seja a infra-estrutura proporcionando acesso à internet e demonstração de conteúdos, o conteúdo poderá ser utilizado por nossos usuários em qualquer lugar.
A metodologia de desenvolvimento dos 6 graus de aproximação se baseia na aplicação de práticas de desenvolvimento tendo em vista o contexto brasileiro. O mercado brasileiro on-line ainda precisa alcançar dezenas de milhões de usuários que são essenciais para revitalizar o mercado e tornar a iniciativa de novos negócios na internet brasileira mais viável para os desenvolvedores já existentes.
Compõem esta metodologia: Grau 1, código padronizado e validado manualmente; Grau 2, usabilidade; Grau 3, acessibilidade; Grau 4, contextualização cultural e linguística; Grau 5, encontrabilidade e; Grau 6, independência do meio.
Os 6 graus de aproximação minimizam a resistência e/ou dificuldade em adotar a internet como um meio útil e relevante para cidadãos brasileiros em todas as classes sociais, aumentando a possibilidade da criação de um mercado mais amigável tanto para o desenvolvedor quanto para o cidadão brasileiro.
Luis de la Orden Morais é baiano de Salvador e reside no Reino Unido aonde é consultor e projetista de interfaces de usuário em projetos comerciais on-line.
Anteriormente trabalhou para o jornal catalão La Vanguardia Digital, em Barcelona. No Reino Unido trabalhou para Nortel Networks, Cisco Systems, Woolworths e LoveFilm, a maior empresa Européia de aluguel de DVDs pela internet.
É pós-graduado, com Distinção, em Gestão de Projetos de Nova Mídia, pelo Birkbeck College, University of London.
© Foto, Luis de la Orden Morais, 2006.