Acessibilidade e localização de conteúdos e serviços on-line - especial

Elementos da acessibilidade lingüística e cultural: contextualização lingüística II - estudos de caso.

Luis de la Orden Morais

Sumário

Segundo artigo de uma série de três acerca da acessibilidade linguística para produtores de conteúdos e serviços on-line.

Analisamos alguns estudos de caso com bons e maus exemplos de conteúdos e serviços on-line culturalmente localizados.

Caso de contextualização lingüística 1 – Dia Mundial da Usabilidade, Brasil e Portugal.

É fácil fazer mais fácil!
O Dia Mundial da Usabilidade (World Usability Day) foi criado para que todos possam saber mais acerca de formas que permitam uma melhor experiência do Mundo ...

Texto do Dia Mundial da Usabilidade

O dia mundial da usabilidade foi um evento criado pela Associação de Profissionais da Usabilidade (UPA) não apenas para celebrar a usabilidade, mas também para conscientizar profissionais, e quem sabe até empresários, sobre a importância da usabilidade no dia-a-dia e nos negócios. Eventos ocorreram em diversas partes do globo, com oficinas de desenvolvimento pessoal e apresentações para pessoas de negócios.

Muito embora tenha sido louvável o esforço dos organizadores em trazer o evento para o Brasil e cuidar da acessibilidade das palestras em inglês para o público brasileiro através de traduções simultâneas, o evento perdeu de vista algo essencial de sua própria acessibilidade e usabilidade.

Enquanto os espanhóis, os portugueses e alguns outros capítulos nacionais da dita associação tiveram o cuidado de contextualizar seu material de propaganda para suas línguas locais, traduzindo-as, nós e um punhado de outros capítulos internacionais anunciamos o evento como World Usability Day.

O micro-sítio do evento em Curitiba. Metade em inglês, metade em português. Sopa lingüística; tradução simultânea ocorreu eventualmente.

©Idealiza. O micro-sítio de um dos eventos no Brasil: inconsistência lingüística tornou a informação do evento algo confuso de entender, perdendo em acessibilidade, usabilidade e marketing. Todas as partes em inglês poderiam facilmente ter sido passadas para o português. A tradução simultânea ocorreu eventualmente, mas não aqui.

Se a iniciativa era aumentar a exposição da usabilidade, é questionável o que se está alcançando ao colocar não uma, não duas, mas três palavras em inglês nos banners, cartazes, impressos e material publicitário em geral de um evento deste porte no Brasil. Quantas pessoas realmente sabem o que é world e quantas pessoas se sentirão confiantes o suficiente para pronunciarem uma palavra difícil como world e dizer para seus colegas, amigos e seu patrão que um evento como o World Usability Day está acontecendo? Nestes questionamentos, sequer tentaremos conjecturar a dificuldade de apreender o próprio conceito do evento, caso você estivesse acessando as páginas do mesmo com um leitor de telas, ou, simplesmente, não possuísse os conhecimentos de inglês que agora parecem ser pré-requesitos para fazer algo mais fácil através da usabilidade no Brasil.

Dentro de um ponto-vista prático, o que aconteceu foi que enquanto os jornais anunciavam o evento como Dia Mundial da Usabilidade, o evento se chamava outra coisa. Uma oportunidade perdida para divulgação e consolidação de conceitos e marcas.

Dia Mundial da Usabilidade na mídia brasileira

O disparate entre o nome do evento segundo os organizadores e a mídia que, claro, optou por chamá-lo na forma mais acessível ao povo. Pelo menos dois jornais utilizaram o nome em português.

O sítio oficial brasileiro pode ser encontrado em www.wud.com.br. As iniciais wud equivalem ao nome do evento em inglês, World Usability Day. As iniciais dmu, ou dimu, que poderiam equivaler ao nome em português, sequer foram registradas.

Os portugueses utilizaram o nome do evento em português, muito embora não tenham descartado o nome nem o endereço baseado nas iniciais em inglês. Dentro deste contexto lingüístico já confuso e inconsistente, essa ainda pareceu ser uma abordagem muito mais sagaz e inclusiva do que a tupiniquim.  O banner principal do evento na página de Portugal pelo menos trouxe o nome do evento e o slogan em português, reduzindo as barreiras lingüísticas desnecessárias que deixamos perdurar na divulgação do evento no Brasil.

Banner do Dia Mundial da Usabilidade em Portugal

©UPA. O Banner do evento em Portugal.

Quando em Roma, faça como os americanos...

O mais impressionante de toda esta história do uso do nome do evento em inglês ao invés de usá-lo em português foi que o Dr. Larry Constantine, uma das maiores autoridades na área de usabilidade de software no mundo, utilizou o banner de Portugal com o nome do evento em português quando fez sua palestra no Brasil.

Para conferir, veja a foto de sua apresentação em Curitiba no boletim UPA Voice (em português, A Voz da UPA) de Dezembro de 2005. A foto se encontra sob o cabeçalho Event 2 Time 12:30 - 14:30, veja o detalhe da apresentação projetada na tela.

Como Webalorixá relatou anteriormente, localizar e normalizar conteúdos consistentemente tem seus benefícios comerciais, no sentido de que ajudam na encontrabilidade do seu sítio nas páginas de resultados de busca, torna conceitos mais fáceis de apreender e de lembrar e elimina barreiras psicológicas óbvias.

Agora é esperar que os colegas da UPA no Brasil e Portugal (ou o próprio escritório global da UPA) se dêem conta do disparate e da inconsistência em suas abordagens lingüísticas e realmente tornem a coisa mais fácil no próximo evento.

Até lá (e depois), graças a Deus por Fred Amstel e outros tantos profissionais de usabilidade no mundo de fala portuguesa comprometidos com a popularização da usabilidade entre as massas.

Um índio descerá de uma estrela colorida e brilhante
De uma estrela que virá numa velocidade estonteante
E pousará no coração do hemisfério sul, na América, num claroinstante...
...E aquilo que nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos, não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio

Caetano Veloso, O Índio.

Banner do Dia Mundial da Usabilidade em Castelhano.

Banner em castelhano.

Caso de contextualização lingüística 2 – Creative Commons.

Como discutido no estudo de caso sobre o lançamento da Brahma no Reino Unido, não só fatores culturais podem influenciar na maneira em que um serviço ou mensagem deve ser comunicado e servido em um país ou região, mas também fatores legais.

O Creative Commons, ou partilha criativa em português, atende a várias necessidades lingüísticas e legais com três versões contextualizadas de seu acordo. A primeira é a contextualização legal do acordo conforme as leis brasileiras. A segunda é a versão do acordo em linguagem leiga. A terceira e mais importante, por ser este o texto que a maioria das pessoas lê, é a versão simplificada com os ícones, a qual utiliza tanto o texto curto e simples descrevendo os termos de partilha criativa do conteúdo quanto a linguagem iconográfica contemporânea.

Vale ressaltar que o Creative Commons se direciona ao macro-segmento de produtores de conteúdo digital como DJs, designers, fotógrafos e outros profissionais criativos, logo as variáveis para a contextualização lingüística são mais específicas. Entretanto, a beleza de toda a iniciativa foi o processo que gerou o Creative Commons: a união de profissionais da área de direito com profissionais criativos digitais, começando nos Estados Unidos e se espalhando pelo mundo como um fogo, se adequando ao combustível lingüístico e legal de cada país e cultura.

Caso de contextualização lingüística 3 – Google, MSN e Yahoo.

Bem o que posso mais falar acerca deste assunto? Se você não leu os artigos anteriores de Webalorixá, o problema dos buscadores no Brasil é que nós não temos resultados em português como a opção automática para resultados de busca produzidos por estes buscadores. Nem nós, nem nenhum outro país que não tenha o inglês como língua materna. Ainda por cima, mesmo que se selecione resultados em português, negócios e serviços de fala portuguesa disputam com resultados em castelhano e outros idiomas.

Muito embora o Google forneça melhores resultados do que os outros competidores, na prática, por que ainda temos que selecionar resultados em português em todos estes aparelhos de busca? Não deveria ser o contrário? Se você é um dos dois ou três gatos pingados no Brasil que fala um outro idioma, não deveria ser você, a minoria, quem deveria selecionar resultados de toda a web para ser inundado com resultados em qualquer língua?

O que se perde com isso?

Você saberá a resposta quando sítios de países latinos estiverem acima do seu nos resultados em português e lhe empurrarem para a terceira ou quarta página de resultados. Não precisa ser muito, basta apenas um resultado em espanhol e isso será a gota d'água no balde que vai lhe puxar para uma página de resultados abaixo, uma página que muitos usuários brasileiros sequer acessarão.

Esta é tanto uma questão comercial quanto social, com repercussões práticas na facilidade de acesso à informação. O que incomoda é que os que acham isto normal não conseguem ver as oportunidades perdidas quando um negócio brasileiro ou português deixa de aparecer nas primeiras páginas de resultado por que uma ou duas páginas em gaélico, espanhol ou outra língua foram consideradas mais relevantes em uma busca em língua portuguesa.

Caso de contextualização lingüística 4 – BBC Brasil e África Lusófona.

BBC serviço multilíngüe.

©BBC.

Muito bem, antes de começar, eu só gostaria de atualizar o leitor sobre a BBC, para termos uma idéia de como a iniciativa de localização lingüística e cultural desta empresa funciona.

A BBC, enquanto uma empresa, é financiada pelo dinheiro público britânico. Cada casa que possui uma TV no Reino Unido paga uma taxa anual de 180 libras para que seus moradores possam assistir qualquer programa televisivo. Este dinheiro vai direto para a BBC, que em troca fornece aos seus expectadores uma programação sem comerciais. Este dinheiro também financia os escritórios regionais da BBC no mundo inteiro, assim como as suas iniciativas on-line e de rádio. Além disto, a BBC tem equipes com profissionais nativos de cada país cuidando do conteúdo que é produzido em seus sítios internacionais.

Quanto à língua portuguesa, Brasil e África têm suas próprias páginas, cada sítio em seu próprio estilo de português. Se quiser saber porque a BBC deu ênfase ao português do continente africano e não ao de Portugal, por favor leia a declaração da BBC

Mais uma vez, se nota que os URLs estão em inglês por razão da centralização dos sistemas no Reino Unido. É um problema de usabilidade, mas no mundo real de uma empresa global que utiliza sistemas de gerenciamento pesados, isso é o máximo que eles podem fazer por agora e por muitos anos. Veja também que a barra superior está quase toda em inglês, o que serve ao propósito de alertar ao leitor que por trás daqueles botões o conteúdo estará em outro idioma. Muito embora o ideal fosse que estes botões desaparecessem por completo, leve em consideração que a modificação destas barras pode ser um trabalho hérculeo em um sítio daquele porte.

Também existe a questão que, sendo financiada por dinheiro público dos contribuintes do Reino Unido, a empresa pode ser exigida a manter seus serviços no Reino Unido à mostra. Por fim, toda idéia de contextualização, localização, acessibilidade lingüística e cultural, e mesmo a tradução, não gira em torno da eliminação dos elementos estrangeiros do conteúdo on-line, ou a transformação de toda e qualquer palavra para um vocábulo em português, como alguns podem pensar.

Dentro de um ponto de localização e coerência lingüística e cultural, uma vez que se entra no sítio da BBC Brasil o usuário pode usar a navegação em português, a qual sempre o levará para conteúdo em português brasileiro.

No sítio africano, pode se ver chamadas de notícias africanas em inglês. Estas chamadas estão claramente identificadas e limitadas a duas caixas pequenas uma com um cabeçalho em vermelho para notícias da África em inglês e outra em amarelo para notícias de esporte, ambas no canto direito, praticamente fora do campo de visão do usuário. Mesmo que possa ser argumentado que essas chamdas poderiam ser publicadas ainda mais abaixo na página, dentro do contexto econômico e social africano, onde apenas os ricos possuem acesso à internet, essas duas caixas de notícias em inglês não são o menor impedimento lingüístico para o acesso à informação que, em sua maioria esmagadora, está em português. Neste caso, elas oferecem ao usuário africano lusófono que fala inglês o acesso a mais conteúdo sem que os outros moradores que não falem o idioma sejam confundidos.

BBC África, em Portugês

©BBC. A BBC em português africano demonstra consistentemente informação em português. Onde é necessária a colocação de notícias em inglês, como as de esportes, estas vêm delimitadas separadamente do resto do conteúdo principal, em uma localização marginal na página que não interfere com o resto das notícias em português. Definitivamente, não é algo apenas para inglês ver.

Em nossa opinião, a BBC oferece a melhor e a mais equilibrada solução do mundo real em acessibilidade cultural e lingüística em língua portuguesa tanto no contexto africano quanto no brasileiro. Com certeza, um exemplo a ser seguido.

Caso de contextualização lingüística 5 – Skype.

O mais interessante sobre o sítio de Skype em língua portuguesa é que quando eu visitei a página deles pela primeira vez, ela me pareceu bem contextualizada. Eu cheguei até a prometer um artigo usando o caso da empresa como um exemplo de uma companhia web 2.0 que estava a par com a Coca-Cola e Microsoft (!) nos quesitos de localização de produtos e serviços.

Mas de perto quase ninguém é normal.

Skype cresceu e muitos dos serviços que antes não eram oferecidos no Brasil e Portugal passaram a estar disponíveis, e, como conseqüência, mais conteúdo em português precisou ser produzido.

São nestas fases de crescimento que acidentes lingüísticos costumam ocorrer.

Como dito anteriormente, no caso do francês canadense e o europeu, companhias como Skype geralmente terceirizam seus serviços de localização de conteúdos e nem sempre mantêm uma equipe dedicada na produção de conteúdo em outras línguas. Nestes contextos, os riscos de ocorrência de inconsistências aumentam ainda mais.

O sítio se apresenta como um sítio em português, e os brasileiros que navegam na internet, coisa entre 12-20 milhões, já se acostumaram com o fato de que é mais provável, na falta de descrição do estilo de português, que este seja o brasileiro. Mas nem sempre. Quem lida com programas de código aberto sabe que uma boa prática de descrição de idioma de um software ou serviço é descrever o software como localizado em, ou, traduzido para, o português brasileiro ou português europeu.

No caso da Skype, à primeira vista é brasileiro, mas não é. Europeu também não é. É uma salada lingüística, 80% brasileiro, 20% europeu. Uma ilustração nos convida a assistir um curto filme, que na verdade é uma animação, não um curta (metragem) como diríamos no Brasil. O nosso palpite é que o tal curto filme surgiu como uma tradução direta de short film.

Animação da Skype

©Skype. A imagem acima parece indicar que Skype tem tido dificuldades óbvias ao tentar harmonizar e fundir os estilos do português brasileiro com o europeu no mesmo sítio. Ou tem utilizado programas de tradução mecânica para traduzir frases do inglês para o português.

O termo curto filme não soa natural e a expressão um simples programa não soa como algo que seria dito normal e correntemente, como um pequeno programa ou um programa fácil. Leia o resto do texto e veja o quão robótico soa.

Então eu descubro que agora eu posso comprar números no Brasil com o SkypeIn, que beleza! - eu penso. Os preços me confundem e eu não sei se estou no lugar correto, pois estão em euros e libras, provavelmente resultantes de uma predição com base no meu IP britânico. O que me remete à conclusão que mudar conteúdo de acordo com o IP do usuário é a coisa mais malévola depois de Hitler e Idi Amin, pelo menos em matéria de localização de conteúdos on-line.

Vou lendo o sítio e às vezes o texto me soa bastante brasileiro até que em um parágrafo algo como telefónico salta e o texto se lusitaniza. Muito embora ler português lusitano não me irrite, a coisa deve ser dolorosa para falantes do português lusitano e africano: brasileiro, lusitano, brasileiro, brasileiro, lusitano, brasileiro, brasileiro. Dá para escutar o cérebro dando cliques ao mudar de uma língua para outra.

Pois, finalmente chego à página de compra, após ter mudado o câmbio para reais em uma outra página. Apesar de ainda não oferecerem números em Salvador, meus olhos se deslumbram com a possibilidade de ter um número em São Paulo, Rio, Belô, Curitiba - mas aí eu me lembro que eu não sou mais solteiro (e o gostosão que pensava ser) para ficar impressionando as meninas na praia (como um bom babaca) com um cartão de visitas cheio de telefones por todo o Brasil - e vou à loja Skype.

Bem, daí caio na loja do Reino Unido, talvez fruto novamente de uma predição baseada no meu IP, mas peraí, eu não estava na página em português? Por que parou, parou por quê? O shop oferece uma opção de mudança de língua e mudo de novo para português, então tudo volta a ser... peraí, ainda está tudo em inglês*.

* Este problema ocorre com freqüência em sítios de grande porte. Antes de crucificar a Skype, lembro-me que muitas lojas virtuais são aplicativos terceirizados que são simplesmente conectados a um sítio. Existe um problema de implementação evidente que deveria ser resolvido, principalmente por que Skype não tem uma loja em português mas oferece a opção para o usuário.

Se você quer estar tranqüilo quanto a este problema, a melhor solução é regionalizar os seus domínios e usar domínios nacionais como .com.br, .pt, .an etc... Por favor, observe que esta solução não é tão fácil de ser implementada em sítios de grande porte por causa das questões de segurança que geram conflitos com os sistemas de gerenciamento de conteúdos, portanto tenha o seu administrador de redes ao lado, para que ele possa analisar o impacto das mudanças e os riscos envolvidos se você decidir dar este passo.

Muito embora Skype pareceu fazer um bom trabalho nesta área em um determinado momento de sua história, deixamos este caso como um exemplo da dificuldade em manter conteúdo localizado e linguisticamente acessível, principalmente se você está se lançando ao mercado internacional sem a base, a infra-estrutura e o real conhecimento linguístico que dão apoio às suas aspirações globais.

Revisão, correção e consultoria lingüística: Paula Góes.

Sobre o Autor

O autor rabugentamente representado por seu filho.

Luis de la Orden Morais é baiano de Salvador e reside no Reino Unido aonde é consultor e projetista de interfaces de usuário em projetos comerciais on-line.

Anteriormente trabalhou para o jornal catalão La Vanguardia Digital, em Barcelona. No Reino Unido trabalhou para Nortel Networks, Cisco Systems, Woolworths e LoveFilm, a maior empresa Européia de aluguel de DVDs pela internet.

É pós-graduado, com Distinção, em Gestão de Projetos de Nova Mídia, pelo Birkbeck College, University of London.

© Foto, Luis de la Orden Morais, 2006.

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