Acessibilidade e localização de conteúdos e serviços on-line - especial

Elementos da acessibilidade lingüística e cultural: contextualização linguística I.

Luis de la Orden Morais

Sumário

Primeiro artigo de uma série de três acerca da acessibilidade linguística para produtores de conteúdos e serviços on-line.

- Para onde agora?
- Vai aí direto.
- Diréito? (Aponta para a direita).
- Não, direto aqui.
- Para o lado diréito??
- Não, direto!!
- Diréito ou esquérdo??? (Entrando em uma rua à direita).
- Não zorra, aqui é contramão!!! É em frente, em frente…
- Aaah, e vais m' dizeire agoira, Luish?!?

O autor, em uma de suas escapadas da Universidade Estadual de Feira de Santana para socializar com os amigos. Ao volante, um grande amigo e colega angolano.

Dentro do processo de localização de conteúdos e serviços, além da contextualização cultural, o produtor de conteúdos on-line precisa atentar para a contextualização lingüística.

Ao estabelecer-se quais os públicos-alvo que o seu conteúdo irá atender, o trabalho lingüístico acaba sendo o mais fácil de ser desenvolvido, mas ainda não é a hora de abrir o dicionário e começar a traduzir o seu texto. Existe um trabalho de base que necessita ser feito a depender da abrangência do conteúdo.

Primeiro temos que definir se o trabalho a ser feito será regional ou internacional, e esta tarefa não é tão fácil quanto parece.

Contextualização lingüística internacional

É fácil confundir este processo com a simples tarefa de traduzir o conteúdo para um outro idioma e mesmo empresas auto-entituladas especialistas em localização de produtos e serviços se confundem quanto ao real significado da prática de localização.

Enquanto trabalhava em uma empresa de porte global, a equipe de marketing comissionou a localização de uma peça publicitária impressa sobre um novo produto que seria lançado na Europa em diversos idiomas. Como parte da equipe de marketing para web, a nossa responsabilidade era criar a versão on-line dos arquivos PDFs e lançar os mini-sítios dentro das páginas nacionais européias. O material seria enviado diretamente da empresa de localização em Londres para os desenvolvedores. Até aí tudo bem.

Quando as versões chegaram às nossas mãos, um dos desenvolvedores, que era francês, leu o material localizado para a França e comentou que partes do texto não faziam sentido. A nossa chefa chamou atenção da equipe central de marketing e obteve a resposta que a tradução foi feita por um dos melhores profissionais na área, com trabalhos feitos anteriormente para a empresa. O francês insistiu que havia algo de errado com a tradução, mas, mesmo assim, publicou a peça.

Uma semana depois, recebemos um e-mail do escritório francês* com um novo arquivo em anexo, pedindo que republicássemos a peça, desta vez em francês europeu ao invés do francês canadense como como constava na versão original (ahá!), para melhor claridade de idéias e comunicação mais efetiva sobre os nossos produtos na França.

O francês ficou radiante.

Para aqueles que estão pensando por que diabos estes caras não deixaram este trabalho nas mãos do escritório francês logo de primeira?, ao contrário de pequenas empresas, empresas globais centralizam (e descentralizam para depois centralizarem de novo) diversas funções, a depender como vão os negócios. Se a empresa está indo bem, equipes de marketing florescem em escritórios regionais; se vai mal, o marketing regional é o primeiro a ser cortado e as funções se centralizam, cabendo a empresas terceirizadas desenvolverem o trabalho dos marketeiros regionais que foram demitidos.

Esta dança do centraliza- dencentraliza (ou como diria Jô Soares: casa, separa, casa, separa) deve-se também às l eis trabalhistas em certos países europeus. Demitir uma pessoa em países como Holanda, França  e Alemanha é muito mais difícil que demitir no Reino Unido, muito embora ainda não seja tão fácil quanto nos Estados Unidos. Se lembram que, por conta de mudanças nas leis trabalhistas na França, quase queimaram Paris inteira e no final o governo francês teve que voltar atrás e dar mais benefícios?

No Reino Unido, a empresa só precisa provar que o seu cargo não é mais necessário. Dentro do processo de enxutamento da folha de pagamento do dito país, você não é demitido, o seu cargo é feito redundante e ninguém pode ocupá-lo após a sua saída, a menos que a empresa prove que você foi relapso, incompetente ou tenha quebrado as cláusulas de seu contrato. Ir à para a justiça para justificar justas causas subjetivas como desempenho é muito mais caro do que tornar a função redundante, logo a redundância do cargo é a opção mais atraente para todas as partes.

Depois deste incidente, ninguém mais falava em traduzir um documento para o espanhol ou francês, agora era tudo castelhano europeu e latino-americano (se é que existe tal coisa como uma língua castelhana latino-americana única,) e francês europeu, canadense ou africano (se, desculpem-me o pedantismo, existe tal coisa como uma língua francesa africana única), não era perfeito, mas já era um começo.

O caso acima, apesar de se restringir à localização de conteúdos e serviços levando em consideração apenas macro-elementos geográficos e lingüísticos (país e língua mais falada), ilustra a questão de que traduzir o conteúdo apenas não basta. Dentro de um contexto empresarial, esta abordagem de país ao invés de regiões foi eficiente na empresa onde trabalhei, pois a linguagem de negócios de grandes empresas do setor não varia demasiadamente dentro de um país. O desafio da equipe de marketing com quem trabalhei foi acertar na linguagem empresarial padrão do país. Tarefa em que, como falam os britânicos, eles falharam miseravelmente*.

Tradução literal da expressão britânica to fail miserably, que significa errar do começo ao fim.

Contextualização lingüística regional

Hoje em dia, ainda que alguns sistemas de estatísticas de sítios web possam determinar, por exemplo, o estado e a cidade de procedência de seus usuários, esta funcionalidade vem com um preço que muitos não podem pagar. Além do custo, este trabalho pode ser bastante difícil de ser feito manualmente em sítios com milhares e milhões de visitas diárias, sendo pesado para um servidor, se automatizado*.

Google Analytics

Bem, este problema de acesso a ferramentas de análise de tráfego e visitas parece ter seus dias contados desde que Google adquiriu a Urchin e passou a distribuir gratuitamente o sistema de análises desta empresa sob o nome de Google Analytics.

O software está muito bem localizado (contextualizado e traduzido) para o mercado brasileiro, sendo bastante preciso nas localizações geográficas e sensível a peculiaridades características do Brasil.

Para usufruir deste serviço, você deve subscrever-se a uma lista de espera para um convite. Webalorixá calcula que este período é de mais ou menos três meses, já que a procura pelo produto tem sido bastante alta.

O programa em si é bastante distinto do leitor do diário (log) de visitas que é oferecido gratuitamente em muitos serviços de hospedagem de sítios, oferecendo análises mais aprofundadas para o acompanhamento de campanhas de marketing on-line e conversão de vendas.

Entretanto existem alternativas que podem ajudar a manter um equilíbrio lingüístico em um país tão vasto e multi-facetado como o Brasil.

Páginas regionais ou micro-sítios regionais

Criar páginas individuais para cada estado brasileiro pode ser dispensável, se o seu sítio tem uma arquitetura de informação bem definida e um conhecimento prévio dos seus públicos-alvo.

O seu conteúdo pode ser contextualizado tanto culturalmente quanto lingüisticamente através do agrupamento de conjuntos de conteúdos para residentes de macro-regiões (Norte-Nordeste, Sudeste, Centro-Oeste, etc), estados e micro-regiões (Recôncavo Baiano, Triângulo Mineiro, etc) em partes específicas do seu sítio, ou em micro-sítios (um sítio dentro do sítio principal). A depender dos recursos e tempo disponíveis, o trabalho de atualização de conteúdos regionais pode ser feito pelos próprios funcionários das filiais regionais, desde que novas responsabilidades não sejam adicionadas de forma agressiva ou estressante, por motivos legais óbvios.

Com um trabalho bem feito de otimização para buscadores e usabilidade, o sítio pode indicar para o usuário onde buscar informações mais contextualizadas de acordo com a região e o linguajar que ele está acostumado, além de oferecer a categorização normal por segmentos de mercado ou áreas geográficas. Com a ajuda de domínios contextualizados, como empresa-bahia.com.br, empresa-alagoas.com.br, redirecionados aos micro-sítios regionais dentro do sítio empresa.com.br, a mágica da localização pode ser mantida, além de adicionar aquele sentimento familiar que os usuários sentem ao serem identificados por sua região ou estado, como faz o SEBRAE em sua página de contatos.

Um outro exemplo da importância da contextualização de serviços pode ser visto na criação do domínio .cat para a comunidade autônoma da Catalunha, na Espanha, para atender a necessidades lingüísticas, culturais e políticas da região.

Páginas com conteúdo em linguagem neutra ou padrão

Você também pode escolher desenvolver seu conteúdo levando em consideração a produção de um conteúdo que não remeta a regiões ou falares específicos.

Em minha opinião, esta é a opção menos aconselhada, pois tira do seu conteúdo aquele efeito pessoal, podendo até deixar o seu sítio sem uma personalidade específica. Também é questionável até que ponto alguém conseguirá desenvolver conteúdo neutro, sem deixar escapar um estilo de língua influenciado pelo seu próprio linguajar, ou sem desbandar para o uso de uma linguagem artificial, disfarçada pelo rótulo de linguagem padrão.

Quando eu era garoto, lá pelos anos 80, adorava ler os manuais de instrução de aparelhos eletrônicos como TVs, máquinas de costurar e liquidificadores. Éramos tão pobres que quando realmente comprávamos qualquer coisa nova - por não poder mais emendar o aparelho velho - a leitura do manual de instruções era um evento histórico. Geralmente a coisa ia pela via do após certificar-se que seu aparelho está na voltagem correta, insira o adaptador à fonte de energia. Na prática, a linguagem era tão descontextualizada que a única coisa que nos ajudava a colocar o novo aparelho para funcionar eram as ilustrações.

Quando faltavam as ilustrações, colocar uma televisão para funcionar requeria mais gente do que a Agência Espacial Brasileira precisou para lançar um foguete ao espaço. Claro, televisão lá em casa só de vinte em vinte anos; só sentíamos o passar dos séculos quando meus pais resolviam que as linhas pretas que tinham obscurecido 70% do tubo da televisão, como uma catarata eletrônica, começavam a ser um problema em nossa experiência televisa e olhos.

Nestes momentos de imersão tecnológica, um dava dicas sobre a voltagem, outro interpretava o que era a tal fonte de energia (depois de termos eliminado a possibilidade de que seria o poste de luz lá fora). Alguém então gritava que era só colocar a tomada na parede, como estávamos acostumados a falar, e esquecer sobre adaptadores e fontes de energia. Sempre tinha o mais cauteloso que dizia, melhor chamar o técnico da Philips, mas esta idéia logo morria, pois ninguém tinha uma quantidade fichas telefônicas suficiente para ligar para a assistência técnica em Salvador ou São Paulo.

Quando a TV ligava, minha mãe dava um grito irritante, Ai, meu Deus, queimou!, a voz e a imagem do Sérgio Chapelein davam o sinal que era carnaval na Bahia de novo. Desligava-se a TV, colocava-se um disco de axé bem alto e a cerveja rolava.

No dia seguinte, era só eu subir no telhado e retorcer a antena de tubos de alumínio e gritar para minha irmã lá embaixo, melhorou? A resposta ou era ainda não tá pegando o Sílvio Santos! ou agora a Globo tá maus!. A coisa era mais difícil que fazer CSS funcionar em internet Explorer 5.5. Nós nem nos dávamos ao luxo de procurar pela Band.

Claro que nem sempre as coisas saíam como o esperado. Uma de nossas vizinhas queimou a sua Singer por não atentar para a tal voltagem. Foi como se ACM tivesse falecido. A Bahia inteira passou pela janela da vizinha para expressar suas condolências. Algum técnico local parava para explicar, um pouco tarde demais, que a voltagem era o botãozinho que mudava os números 110 e 220. Tem que usar uma chave-de-fenda, viu? Frisava ele.

Bem, eu não posso culpar a falta de contextualização lingüística dos manuais e a utilização de uma linguagem padrão por uma infância infeliz (meus sinceros agradecimentos à Philips do Brasil), mas, já que somos parte do mercado consumidor pagante destes produtos e serviços, incluindo os manuais que os acompanham, custava explicar em uma linguagem que fosse familiar?

Páginas com conteúdo em linguagem mesclada

De um ponto de vista de compreensão de leitura é melhor que o seu conteúdo se atenha a um estilo de linguagem comum na região e/ou segmento de seu público-alvo do que tentar combinar a língua falada em São Paulo com aquela do Rio, Pernambuco e Minas. Como dissemos acima, criar micro-sítios regionais com linguajares regionais pode ser uma opção melhor do que criar um conteúdo único com diversas contribuições lingüísticas vindas de várias fontes, principalmente por que isso afeta negativamente à naturalidade de seu conteúdo.

Buscar um denominador comum lingüístico pode ser algo mais complicado ainda, um exemplo do problema é como a palavra download é falada em cada parte do Brasil, uns chamam de puxar um arquivo, outros dizem baixar um arquivo e já outros se referem a ela como pegar um arquivo na internet.

Entretanto como, pelo menos no Brasil, somos abençoados com as telenovelas e os BBBs da vida, usar a linguajem falada comumente por personagens populares e do gosto do público comum pode ser um começo (com exceção de qualquer coisa falada pelo Miguel Falabella e seus personagens ;) ), principalmente quando a televisão brasileira tem contribuído não só para a massificação da língua falada no Brasil, mas também para a popularização de brasileirismos em Portugal. O cuidado que devemos ter é que o português ou o brasileiro falado nos programas de TV muitas vezes não são fáceis de identificar de primeira em formato escrito (você pode colocar o Miguel Falabella, repetindo download em cada fala, mas quem lê saberá que a palavra falada é escrita daquele jeito?). Além disso, muitas expressões não pegam, sendo logo esquecidas pelo grande público.

Igualmente não se iluda com o fato que já que 90% dos cidadãos brasileiros têm um aparelho de TV, e o que a TV difunde é absorvido igualmente por todos, na prática muitas pessoas não entendem muita coisa que passa na TV, ou não se importam em entender. Quando algo não é entendido, as pessoas só continuam assistindo pelo fato de que as imagens cativam os olhos e a atenção, desligando e ligando partes do cérebro a depender do estímulo visual, como se elas estivessem no piloto automático.

Eu vivi isso na prática, quando passei um mês em Budapeste. Assisti muita TV, ouvindo coisas que não tinha a menor idéia do que eram. Naquelas horas chatas, confesso que a TV, mesmo em húngaro, me distraiu. Quanto ao húngaro, voltei sem falar uma palavra sequer, nem poderia, pois como me disseram mais tarde, boa parte dos programas que eu estava assistindo era em polonês (!).

Além disso, preste atenção que além dos regionalismos, a língua é influenciada por segmentos de mercado, ou, se você desejar soar menos capitalista, segmentos sociais ou apenas segmentos.

Enquanto o público baiano de Salvador em geral chama um ônibus com ar-condicionado de frescão (regionalismo), uma operadora de turismo na mesma cidade poderá desejar anunciar seus passeios para membros do clube da terceira idade (segmento) como feitos em ônibus de luxo. Para excursões para jovens, poderá chamar os mesmos veículos de super-frescões, já que a palavra luxo pode soar como algo chato para os mais jovens. Neste último caso, a linguagem foi determinada tanto por uma questão de regionalismo (como a expressão é falada em Salvador, Bahia) quanto por segmento de mercado (como os jovens poderiam chamar a este tipo de ônibus) e, também, por uma questão de marketing da companhia, que decidiu ressaltar seus serviços ao utilizar a palavra super.

Claro que sempre existirá um elemento de inovação lingüística que os profissionais de marketing explorarão, mas o sucesso ou o fracasso destas inovações são sujeitos a vários fatores, e algo bem sucedido pode ter um período de existência curto. De todo modo, esteja atento ao fato que existem variáveis que você deverá equilibrar na hora de contextualizar: marketing, plano de negócios, cultura da empresa, usabilidade, etc. Assim como ninguém é uma ilha, web design, desenvolvimento e lingüística não ocorrem isoladamente em projetos do mundo real.   

O desafio é encontrar o equilíbrio entre todas as variáveis em jogo. A ajuda de um lingüista de cabeça aberta e em contato com os modos de falar da população e seus segmentos pode ajudar se acompanhada de um bom trabalho de usabilidade e marketing sérios.

Revisão, correção e consultoria lingüística: Paula Góes.

Sobre o Autor

O autor rabugentamente representado por seu filho.

Luis de la Orden Morais é baiano de Salvador e reside no Reino Unido aonde é consultor e projetista de interfaces de usuário em projetos comerciais on-line.

Anteriormente trabalhou para o jornal catalão La Vanguardia Digital, em Barcelona. No Reino Unido trabalhou para Nortel Networks, Cisco Systems, Woolworths e LoveFilm, a maior empresa Européia de aluguel de DVDs pela internet.

É pós-graduado, com Distinção, em Gestão de Projetos de Nova Mídia, pelo Birkbeck College, University of London.

© Foto, Luis de la Orden Morais, 2006.

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