Luis de la Orden Morais
Terceiro artigo de uma série de três acerca da acessibilidade cultural para produtores de conteúdos e serviços on-line.
A esta altura, você como desenvolvedor deve ter uma idéia mais ou menos clara do que a contextualização sócio-cultural envolve. Na prática, a contextualização cultural e social é a identificação dos segmentos de mercado onde os seus públicos-alvo se encontram e a busca por elementos que façam estes usuários se sentirem satisfeitos e familiarizados com o conteúdo fornecido.
É natural pensarmos que aquilo que entendemos e percebemos é a mesma coisa que o outro entende e percebe. Para nós que trabalhamos com tecnologias da informação, entender como usuários se posicionam diante de nosso conteúdo é um exercício árduo, pois estamos tão imersos na área que sequer nos damos conta que a experiência de obtenção de informação on-line pode ser complexa, exigindo habilidades que em si excedem às exigidas por meios como a televisão e o rádio: ligar um computador, abrir um programa, entrar um endereço da web, clicar em um botão, esperar por uma resposta do sistema, clicar em um link, rolar a página, etc.
Antes mesmo de chegar ao campo do teste dos três cliques para encontrar qualquer informação em seu sítio, o usuário passará por testes diversos que só contribuirão para desestimulá-lo: pode ser a análise do antivírus retardando a velocidade do computador, um programa fechando inesperadamente, buscar pelo navegador na pasta de programas, responder a um comando em uma janela, etc.
Mesmo o domínio razoável de habilidades de uso do computador e navegação pela internet não garantirá que o conteúdo seja acessível ao usuário uma vez que este finalmente chegue lá.
Neste momento em que todos falam em inclusão digital, não podemos nos esquecer de que o problema não termina em dar o computador e a conexão ao pobre, ao idoso ou ao usuário iniciante. Além da infra-estrutura, se faz essencial fornecer o conteúdo dentro dos sistemas de valores, cultura e linguajar dos excluídos.
Para tal precisamos entender que a experiência de navegação ocorre dentro da experiência de uso de um computador, e se estende no contexto e ambiente do usuário, encontrando o seu clímax na confrontação com o conteúdo.
Como profissionais da web, a nossa tarefa está limitada aos estágios intermediários e finais de todo processo (da abertura do navegador à navegação em si); não temos controle sobre a velocidade de conexão ou o tipo de computador que o usuário esteja utilizando, mas como senhores destes estágios tardios, cabe a nós torná-los os mais fáceis de todo processo de interação do usuário com um computador.
Contextualizar seu conteúdo, assim como torná-lo previamente usável, útil e acessível, ajuda a garantir que os esforços feitos pelo usuário para chegar à sua página produzam a satisfação psicológica que ele esteja buscando, e que possíveis experiências negativas ocorridas nos estágios iniciais da interação com o computador sejam neutralizadas no momento em que o usuário finalmente chega ao seu conteúdo.
Revisão, correção e consultoria lingüística: Paula Góes.
Luis de la Orden Morais é baiano de Salvador e reside no Reino Unido aonde é consultor e projetista de interfaces de usuário em projetos comerciais on-line.
Anteriormente trabalhou para o jornal catalão La Vanguardia Digital, em Barcelona. No Reino Unido trabalhou para Nortel Networks, Cisco Systems, Woolworths e LoveFilm, a maior empresa Européia de aluguel de DVDs pela internet.
É pós-graduado, com Distinção, em Gestão de Projetos de Nova Mídia, pelo Birkbeck College, University of London.
© Foto, Luis de la Orden Morais, 2006.
Opinião e Notícia: E-mail publicado em resposta ao artigo Exclusão digital e lingüística, de 25 de Novembro de 2005
Brasil lá fora: Álbum de fotos do Memorial Jean Charles de Menezes, na estação de Stockwell, Londres.