Luis de la Orden Morais
Primeiro artigo de uma série de três acerca da acessibilidade cultural para produtores de conteúdos e serviços on-line.
Discutimos a localização de conteúdos para o mercado brasileiro e questões de identificação nacional e regional.
Frank McCourt, As Cinzas de Ângela (Angela's Ashes), tradução livre. O irlandês Frank McCourt descrevendo as conversas em iídiche de uma família de amigos judeus de Nova Iorque, em sua infância.Nos sentamos à mesa, comendo bolo, bebendo leite. O senhor Leibowitz fica sentado em uma poltrona, lendo o jornal, escutando ao rádio. Às vezes ele conversa com a senhora Leibowitz e eu não entendo nada porque sons estranhos saem de sua boca. Freddie [Leibowitz] entende. Quando o senhor Leibowitz faz os sons estranhos Freddie se levanta e leva para ele um pedaço de bolo. O senhor Leibowitz sorri para Freddie e lhe afaga a cabeça, e Freddie sorri de volta, fazendo aqueles sons.
Se hoje você tivesse de lançar um produto como uma cerveja no mercado do Reino Unido (Inglaterra, País de Gales, Escócia e Irlanda do Norte), qual o termo você utilizaria para descrever seu público-alvo, ou melhor como você chamaria o seu público-alvo pelo primeiro nome?
Por favor, vire o seu monitor de cabeça para baixo para ver as respostas no fundo desta página :).
Talvez, nenhuma das alternativas seria a resposta correta. Britânico (do inglês, British) é um termo usado pelos meios de comunicação e pelo Governo Britânico, mas a maioria dentro do populacho não gosta de usar. Os britânicos preferem ser chamados de ingleses, escoceses, irlandeses ou gauleses, e ressentem o uso do termo britânico
por parecer uma tentativa de correção política e obliteração cultural. Existem questões históricas, como a do Império Britânico e a depender de onde você esteja no Reino Unido, o uso de tal termo pode gerar dissensões.
O melhor seria utilizar nenhum nome que remetesse à questão de identidade nacional; o mesmo se aplica a quase todos os países europeus.
Enquanto isto no continente pan-americano…
EU SOU BRASILEIROOOOOOOOOO!!!!
GOD BLESS AMERICA!
ARRGENTINAAAA, CHÊ!!!!
Com exceção daquela época em que os nazistas brasileiros tentaram sugerir a separação do mercado produtor do Sul do mercado consumidor do Norte e Nordeste brasileiros em dois países, e ainda que alguns californianos e texanos preguem a separação dos seus estados do resto dos Estados Unidos, o Brasil e demais países do continente americano ainda parecem nutrir um sentimento de identificação nacional que se centra na nacionalidade ao invés das regiões e micro-regiões. Em outras palavras é mais fácil encontrar uma maioria disposta a se identificar como Brasileiro, Argentino e Norte-Americano no continente americano do que o equivalente no continente europeu.
Mesmo em países com um sentimento de identificação nacional comum (note que não estamos falando de identidade nacional que é algo muito mais complexo), o produtor de conteúdos ainda deveria levar em consideração quais públicos-alvo existem dentro do contexto de uso de seu serviço. Foi tomando em consideração estas peculiaridades que surgiu a usabilidade social, que estuda as relações sociais entre pessoas em uma empresa ou outro agrupamento social definido, como religião ou camada social. Em tese, da usabilidade social nasce a acessibilidade lingüística, mas na prática comercial a coisa ainda fica restrita à produção de interfaces de usuário (menus, comandos, etc.) e a tradução destes apenas.
Faltando processos comerciais mais amplamente definidos e em uso no quesito de usabilidade social e acessibilidade lingüística e cultural, resta ao produtor de conteúdos on-line exercitar um tanto às cegas o bom senso na produção de seu conteúdo e se perguntar se este atrai ou exclui seu público.
Por exemplo, uma companhia distribuidora de produtos pode escolher usar seu conhecimento e logística para abrir um sítio de vendas on-line para consumidores em geral, para tanto eles podem chamar o seu serviço on-line:
Cada nome carrega em si um conjunto de significados e impressões que podem dar ao serviço conotações bastante distintas. As opções Centro de distribuição de produtos
e Centro de abastecimento
são demasiadamente técnicas para refletirem qualquer empatia no consumidor comum, apelando mais para donos de mercados e revendas de produtos. Entretanto, pelo menos na Bahia, nós nos acostumamos com o nome centro de abastecimento
como um mercado grande onde se pode comprar alimentos em pequenas quantidades pelo preço de atacado.
Shopping center apela para as classes média e alta e pode intimidar o pobre, ainda que seja cada vez maior o número de Shopping Centers
com um apelo para consumidores nas camadas mais populares. Armazém pode soar demasiado popular e um pouco antiquado, pode ser bastante apelativo para o pobre, mas talvez não para a classe-média. Supermercado e centro de compras podem funcionar melhor, pois são termos neutros e conhecidos por todos. Claro que a depender de onde você viva, as percepções acima podem ser totalmente contrárias às suas.
Como se pode ver, o maior trabalho na localização (tornar local e familiar) e acessibilização (tornar acessível e fácil de entender) do serviço não foi com tradução, mas encontrar um nome que servisse como denominador comum para o maior número de pessoas dentro de várias classes sociais e segmentos de mercado. Algumas vezes, não é possível alcançar esta sintonização harmoniosa em um só sítio e outras versões do serviço ou loja virtual necessitam ser criadas para servir cada segmento-alvo do mercado.
Trabalhamos com vários grandes varejistas no Reino Unido e sempre que um projeto chega à mesa, as características são as mesmas: a marca mais conhecida é sempre uma que tem a maior penetração no mercado, com uma presença tanto física (nas ruas) quanto virtual (sítio web)*. Seguindo a marca principal vêm outras seis que sequer sabíamos que existiam. Geralmente estas marcas auxiliares são aquelas marcas que atendem a segmentos de mercado como anciões, estudantes universitários, adolescentes ou paupérrimos (mais exatamente os que vivem do salário-desemprego dado pelo governo, pessoas cujos tostões enchem bilhões e bilhões de cofrinhos de lojas de comércio eletrônico por toda a Europa).
Este modelo de comércio chama-se de modelo de comércio de tijolos e cliques
, referindo-se a um varejista que possui lojas na rua e um sítio de comércio eletrônico.
Quando transportamos estas práticas de diversificação de conteúdos de acordo com segmentos de mercado para a realidade de um mercado emergente, como o da América Latina, temos que admitir que ainda levará um pouco de tempo para que vejamos este modelo de comércio eletrônico se tornar prática comum. Muito embora, plataformas robustas de comércio eletrônico como o IBM Websphere permitam que várias lojas sejam criadas a partir do mesmo catálogo principal de produtos, com design e conteúdo para cada segmento, a partir do mesmo aplicativo e sem a necessidade de se manter cada loja em um servidor distinto, o modelo Latino-Americano de negócios geralmente privilegia uma marca principal em detrimento de outras e procura conter gastos ao desenvolver super-lojas virtuais vendendo de tudo, ao invés de criar lojas segmentadas.
Um exemplo deste modelo Latino-Americano são os sítios das Lojas Americanas. Entretanto, a Som Livre Brasil, em uma recente reestruturação, decidiu se desfazer do catálogo de livros, DVDs e jogos para voltar a se dedicar ao segmento de CDs e música exclusivamente, talvez para minimizar perdas. A Som Livre Portugal, entretanto, continua como uma multi-loja virtual.
Revisão, correção e consultoria lingüística: Paula Góes.
Luis de la Orden Morais é baiano de Salvador e reside no Reino Unido aonde é consultor e projetista de interfaces de usuário em projetos comerciais on-line.
Anteriormente trabalhou para o jornal catalão La Vanguardia Digital, em Barcelona. No Reino Unido trabalhou para Nortel Networks, Cisco Systems, Woolworths e LoveFilm, a maior empresa Européia de aluguel de DVDs pela internet.
É pós-graduado, com Distinção, em Gestão de Projetos de Nova Mídia, pelo Birkbeck College, University of London.
© Foto, Luis de la Orden Morais, 2006.
Opinião e Notícia: E-mail publicado em resposta ao artigo Exclusão digital e lingüística, de 25 de Novembro de 2005
Brasil lá fora: Álbum de fotos do Memorial Jean Charles de Menezes, na estação de Stockwell, Londres.